A vida humana é mesmo uma peça de teatro. Foi o pensamento que brotou da minha companhia de visionamento e que ecoava também na minha cabeça após o visionamento destes “Jogos da Fome”. E de facto, se o ser humano sempre gostou de ver outras criaturas da sua espécie a interagir, e a sofrer até, à distância, e numa zona de conforto – o cinema terá sido inventado com esse mesmo propósito! – sentimos que a tendência é para regredir progressivamente (voltando à epoca dos espetáculos de gladiadores), com a chegada de “palcos” cada vez mais inovadores, ironicamente. É impossível não sentir que deveria haver um ponto de paragem algures.
Não sabemos o ano em que estamos. Sabemos que a América foi transformada num território intitulado Panem, dividida em 12 distritos. Anualmente, são selecionados ao acaso 2 jovens de cada distrito (um rapaz e uma rapariga) para concorrer aos “Jogos da Fome”, transmitidos ao vivo para toda a região. Desses 24, só um sairá vivo.
{xtypo_quote_left}Filme deliciosamente perverso este {/xtypo_quote_left}“The Hunger Games – Os Jogos da Fome”, tal como “Battle Royale” e “Series 7 – Os Sobreviventes”, pode parecer… extremista, à partida. Afinal, a ideia de juntar um grupo de humanos em competição que terão de se matar até só restar um sobrevivente é um conceito ainda hoje surreal, felizmente. E, ainda assim, comemos que nem crianças a receber a papa à boca e sem reclamar “reality shows” que fabricam “realidades” das maneiras mais maniqueístas e perversas que possam existir, desde amores falsos a “escândalos” que podem manchar para sempre a reputação de uma pessoa. Estaremos tão longe desta realidade como queremos pensar? Estará a raça humana condenada a querer ver dramas alheios, com doses de sadismo cada vez mais crescentes?
Gary Ross, que nos tinha dado um belíssimo “Viagem ao Passado” e um menos belo (mais convencional, digamos) “Nascido Para Ganhar”, regressa à cadeira de realizador 9 anos depois, e é um regresso sentido. Noutras mãos, o projeto poderia ter caído numa mera acumulação de pontos-chave. Ross, que aqui também escreveu o argumento (adaptado do romance homónimo de Suzanne Collins) detém o poder da exposição precisa dos pontos-chave da narrativa, com “timing” afinadíssimo, revelando e transmitindo ao espectador sempre o que é preciso, e nunca mais do que isso. Como resultado, o filme poderá parecer um pouco hermético a alguns espectadores, mas é um hermetismo demasiado precioso para ser criticado.
Além disso, não temos felizmente muita da estética de videojogo que se podia temer (e que infelizmente tem acontecido a muitas outras adaptações). E quando esta acontece – mais concretamente a meio do filme e no “grande final”, onde temos uns “bosses”/obstáculos pela frente, funciona sempre no contexto da narrativa.
Filme deliciosamente perverso este, capaz de dar uma valente chapada a qualquer espectador minimamente inteligente que tome consciência da sua natureza inerente de “voyeur”, mesmo nas condições mais extremas. Ou não tivessemos nós inventado o cinema. E os “reality shows”. E não tivessemos uma ligeira tendência para a auto-destruição. Esperemos que os mais de 250 milhões de dólares já conquistados só no mercado norte-americano sirvam para algo, e mandem a mensagem “correta” ao mundo…
O Melhor: Tal como a melhor ficção científica, o grande espelho que mostra à Humanidade. Tal como em “Battle Royale” e “Series 7”, o espectador torna-se vítima da sua natureza “voyeuristica”, e daí resulta uma perversidade que é sempre fascinante de notar…
O Pior: A mensagem relativamente explícita poder ser facilmente subvertida, ainda assim.
| André Gonçalves |

