«The Hunger Games» (Os Jogos da Fome) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
Não se inventa a pólvora em «Os Jogos da Fome». Aliás, há poucos conceitos novos na saga literária de Suzanne Collins e no filme de Gary Ross, mas isso não lhe retira o mérito de conseguir criar um universo curioso e com algumas mensagens – ainda que tímidas – para as diversas gerações.
 
No filme (e no primeiro livro onde esta obra se inspira) estamos num futuro pós-apocalíptico. Aí surge das cinzas do que foi a América do Norte, Panem, uma nova nação governada por um regime totalitário que a partir da megalópole, Capitol, governa os doze distritos derrotados com mão de ferro. Como castigo, todos os Distritos estão obrigados a enviar anualmente dois adolescentes para participar nos Jogos da Fome – um espectáculo sangrento de combates mortais cujo lema é «matar ou morrer». No final, apenas um destes jovens escapará com vida…pois a esperança é uma forma de controlar multidões mais forte que o medo. Mas atenção, «alguma esperança (…) não muita», como afirma o presidente Snow num discurso que rege todo o ambiente do filme.
 
Ao embarcar neste esquema de regimes totalitários, o filme e Ross ganha logo pontos ao fugir do habitual jogo de duas cores e autoritarismo social que normalmente caracteriza este género de películas. Aliás, poucas são as vezes que vemos um jogo de cores tão dispersos (fez lembrar «O Quinto Elemento») serem utilizados por uma suposta população «oprimida». Na verdade, a opressão apenas afecta os distritos e no Capitólio parece que vivemos uma recriação futurista daquilo que sabemos que foras os derradeiros dias do tempo dos romanos (que tinham os gladiadores como jogo de entretenimento), ou até da excentricidade da época de Luis XIV (e que culminou com a revolta popular/que se advinha também para esta saga). Por isso, dizer que o filme se inspira para contar a sua história em outros filmes («The Lottery», «Battle Royalle», «Rollerball») é algo diminuidor, pois na verdade podemos dizer que pincelada aqui, pincelada ali, «Os Jogos da Fome» são um resultado da história da humanidade (e dos nossos medos), tal como esses filmes. 
 
Mas ainda mais importante que os próprios jogos em si é a forma como estes são encarados como entretenimento de massas, o que é o resultado de uma sociedade em profunda decadência de valores. E é aqui, e apesar de alguma superficialidade (preferência em mostrar acção que entretenha), que o filme vai muito além que o blockbuster comum (desmiolado). Ao apresentar todo um leque de jogos de bastidores por trás dos Jogos da Fome, Collins/Ross conseguem mostrar alguns pontos importantes sobre a exploração humana e a desumanidade como entretenimento, num derradeiro reality show onde o governo e a TV de entretenimento são o mesmo.
 
Com um visual arrojado, uma direcção artística poderosa, um guarda-roupa excêntrico e interpretações positivas (especialmente de Jennifer Lawrence), «Os Jogos da Fome» conseguem assim serem muito mais transversais, abrangentes e visualmente empolgantes que o próprio livro, ainda que muitas vezes haja demasiada pressa e se privilegie a acção e o romance adolescente básico em vez de se dar mais força ao ambiente e ao teor político inerente.
 
O Melhor: Um bom entretenimento com alguns miolos
O Pior: A perspectiva de um trio amoroso pastiche e demasiada pressa e superficialidade em apresentar alguns momentos da história
 
 
 Jorge Pereira
 

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