De certa maneira, Abel Ferrara enterrou um passado glorioso quando realizou «O Funeral» em 1996. A partir daí, e apesar de alguns laivos cinematográficos curiosos como «Histórias de Cabaret» (2007), a sua carreira nunca mais foi a mesma, apesar de existir nitidamente uma ala intelectual que prefere o seu trabalho após o ano 2000.
Com «4:44 Last Day on Earth», Ferrara trás até nós o fim do mundo através dos olhos e relações de um casal, Cisco (William Dafoe) e Skye (Shanyn Leigh), que vivem os últimos momentos da sua vida conscientes que não existe milagre que lhes valha, mas que podem ao menos fazer aquilo que desejam, seja pintar, seja o ficar pedrado, desde que estando juntos (quer fisicamente através do sexo, quer espiritualmente).
Como se esperaria, esta obra de Ferrara orienta-se em torno das suas personagens, dos seus estados mentais, muitas vezes transpostos para diálogos e imagens da mais variada espécie que de forma contemplativa tentam captar as mais diversas reações à chegada do fim. A vertente científica em torno da razão do fim do mundo não interessa detalhar, mas sabemos que Al Gore tinha razão. Este género de superficialidades e abstrações torna-se particularmente nefasta quando contamina o próprio estudo das suas personagens, sendo muitas vezes o argumento preguiçoso, banal e confuso (com a intenção de mostrar confusão), e só tenha realmente força quando os atores puxam por ele nas suas interpretações.
Com isto, «4:44 Last Day on Earth» acaba por ser um filme mais conceptual do que verdadeiramente eficaz e demonstra ser mais um passo em falso de um cineasta que já viu melhores dias…


