Por vezes há decisões que temos de tomar em meros segundos e que terão impacto em toda a nossa vida. Em «Wymyk» (Courage) acompanhamos dois irmãos que durante uma viagem de comboio são atacados por um bando de arruaceiros após tentarem defender uma jovem que estava a ser assediada por um dos homens. Mas se um entra em confrontação com os três homens, o outro acobarda-se e deixa o irmão ser espancado e atirado pela borda fora do comboio.
A partir daqui entramos numa viagem ao questionar da masculinidade do segundo homem, que se sente (e é tratado) como um cobarde, especialmente nesta era tecnológica global em que o evento foi parar ao youtube. Claro que Greg Zglinski não toma qualquer partido nem aponta o dedo a ninguém, deixando ao espectador essa tarefa, enquanto profundamente questiona a masculinidade, o sentido protetor, paternal e até o heroísmo no século XXI.
Há certos pontos de «Wymyk» que fazem lembrar os estudos de Jeff Nichols nas suas obras recentes («Histórias de Caçadeiras» e «Take Shelter»), mas Zglinski gosta de encriptar as suas personagens com pequenos detalhes que nos dão por sugestão diversas pistas. Por exemplo, os irmãos desta história são muito diferentes e de certa maneira o seu percurso – até na relação com o pai – pode ter ditado a decisão tomada no comboio. Um deles (o mais velho) abandonou os estudos quando o pai sofreu um enfarte, trabalhando na sua empresa. Nesta pode-se dizer que é o mais conservador e que pretende manter no seio familiar a esfera de negócios. Já o mais novo é ium dealista, estudou fora do país e anseia por expandir o negócio, abrindo a porta a novos parceiros comerciais e ultrapassando na força das decisões da empresa o irmão mais velho. Tudo isto são apenas dicas que o cineasta deixa, questões que podem levar à decisão no comboio, mas também podem não representar nada disto. Há até defensores no circuito da crítica que defendem que cada um dos irmãos representa a Europa e os EUA no contexto global.
Por isso, e pela forma multifacetada com que cada pessoa pode ver a obra e decidir por si só se houve cobardia ou não, «Wymyk» é um filme bastante conseguido e que merecia uma exposição alargada em termos europeus.
Uma última nota para a prestação dos atores neste drama, em particular de Robert Wieckiewicz – um dos atores polacos mais ativos da atualidade e que brevemente veremos como Lech Wallesa no mais recente filme de Andrzej Wajda.
| Jorge Pereira |

