IFF Guadalajara: «Americano» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Não deve ser nada fácil para Mathieu Demy trabalhar atualmente no cinema e carregar o peso, a pressão e a responsabilidade de ser filho de Jacques Demy e Agnès Varda.
 
Inevitavelmente, todas as comparações do mundo serão feitas, ainda que se tente sempre analisar objetivamente um trabalho como individual. Neste caso especifico não ajuda nada o facto de o próprio Mathieu ter recuperado imagens de «Documenteur», uma obra que ele como criança protagonizava ao lado de Sabine Mamou. Este trabalho foi realizado pela sua mãe e o jovem cineasta aproveita essas imagens para recolocar em «Americano» como retrocesso à infância da sua personagem (sim, ele também protagoniza o filme), a de um homem – Martin – que vive em França mas que tem ligações de infância aos EUA e à sua mãe (no filme) que lá vivia. Assim, e logo após ter conhecimento que a mãe faleceu, Martin viaja para os EUA, sendo logo a cena no aeroporto uma interessante perspetiva de quem é o verdadeiro estrangeiro naquele país.
 
Aos poucos ele vai conhecendo mais um pouco da vida da sua mãe em Venice, e da qual nega ter recordações, sentindo profundamente que esta não se interessava por ele. O filme entra assim na sua fase da descoberta das origens, um tema muito na voga e presente em inúmeros filmes recentes, como o estrondoso «Incendies». É nessa descoberta da vida da sua falecida mãe que ele vai encontrar uma figura, Lola, presente em fotografias e a quem a sua mãe deixou a sua casa «numa herança». Quem é Lola? Os caminhos para a encontrar implicam que Martin parta numa viagem até Tijuana. Será aqui que a sua necessidade de saber mais sobre a mãe se torna uma obsessão, muitas vezes até fastidiosa para o espectador. E esse é o grande problema de «Americano». Se inicialmente o filme encarna numa viagem pelo desconhecido, à medida que a obsessão toma conta de Martin, o filme transforma-se num exercício cansativo e repetitivo. É certo que ao mesmo tempo vão aparecendo pequenos detalhes, pequenas histórias irrelevantes para o geral, mas que preenchem muito bem o argumento, ontudo, nada disto nos eleva para outro estado que não o interesse primário em descobrir o fim do filme.
 
 

Para piorar, as prestações na obra deixam um pouco a desejar, ainda que a introdução de cada uma evoque mais mistério do que realmente existe. Veja-se Lola, interpretada por Salma Hayek. A sua aparição no filme surge através de um número de striptease ao som de «Going to a Town», de Rufus Wainwright.  A cena está muito bem-criada, mas acaba por parecer deslocada do sitio especifico onde se realiza, um bar chamado Americano que transpira desconfiança e tem muito menos charme que o show de Hayek transparece.
 
Concluindo, «Americano» mostra assim um cineasta com potencial, ainda agarrado à herança paternal, mas que para primeira obra poderia – e deveria – ter uniformizado melhor a sua história e envolvência, bem como puxar por prestações mais conseguidas dos seus intervenientes – ele próprio incluído.
 
O Melhor: O rebuscar de «Documenteur»
O Pior: O último terço é fastidioso e desconexo, especialmente quando Martin entra numa verdadeira espiral obsessiva
 
 
 Jorge Pereira
 

Últimas