Depois de estrear no Festival de Sundance e de conquistar o público de diversos festivais, como Sitges, «Bellflower» chegou agora ao Fantasporto, sendo este um daqueles projetos que transpira à visão do seu cineasta, Evan Glodell, que para além de realizar o filme – com um orçamento abaixo dos 15 mil euros – também atuou nele e escreveu-o.
Em «Bellflower» seguimos Woodrow e Aiden, dois amigos que vão viver para a Costa Oeste. Presos num estado pré-apocalipse, os dois vão criando armas e outros objetos no seu tempo livre, sendo a sua obra-prima um carro com lança chamas (o sonho do Calvin, certamente). É num patético concurso de quem come insetos que Woodrow se vai enamorar de Milly, uma rapariga local que o avisa de imediato que eventualmente a relação irá acabar mal.
A partir daqui o filme envolve-se muito na relação destes, sendo o tom e o ambiente aquilo que o torna diferente de tantos. E este tom e ambiente vêm em muito da estética peculiar que Glodell aplicou ao seu projeto, quer na forma como a própria câmara filma as cenas, quer via o trabalho de cinematografia de Joel Hodge. No caso da câmara, esta foi mesmo desenhada e construída pelo cineasta, o que demonstra a sua dedicação e o sentido de supervisionar todos os detalhes do seu projeto. Já o trabalho de Hodge é incendiário na palete de cores utilizada, fazendo lembrar o desconforto de «Mad Max» e das películas apocalípticas que sabemos terão um final tendencialmente negativo.
É nestes dois elementos que está o melhor do filme e são eles que muitas vezes nos fazem esquecer alguns dos problemas desta pequena produção em termos monetários. Porém, os problemas existem e são indisfarçáveis. Para começar temos a atuação dos atores, longe de qualquer brilhantismo, sendo particularmente visível que se recorreu a algumas improvisações durante as filmagens com resultados atabalhoados. Isto nota-se particularmente em algumas cenas fulcrais (as de confrontação direta) que assim perdem a força de nos envolver ainda mais emocionalmente. Depois, há ainda alguns momentos em que parece que Glodel perde a sua orientação, existindo alguma tendência para a dispersão e para a súbita mudança de planos e atitudes das personagens (sem razão aparente). Com isto o filme vai perdendo fulgor. Se a estética vai nos prendendo, as personagens e o apocalipse emocional (sem bases e interpretações fortes como «Blue Valentine», por exemplo) tornam o último ato particularmente fraco, prejudicando a obra na sua totalidade.
Ainda assim, Evan Glodell demonstra que é um cineasta a seguir no futuro e que o cinema indie continua a renovar-se, nem que seja com boas intenções e cineastas com garra. Falta agora saberem temperar melhor os ingredientes em que apostam…
O Melhor: A estética
O Pior: Há algumas cenas chave em que as fracas atuações retiram impacto
| Jorge Pereira |

