Passado num cenário rural semelhante ao de “A Love Song”, no Colorado natal do realizador Max Walker-Silverman, “Rebuilding” tem em si uma alma e um corpo mais robusto que o filme de 2022, o qual, além da interpretação desarmante de Dale Dickey, nunca conseguia deixar de se sentir uma curta-metragem enfiada no corpo de uma longa, ainda que a protagonista enchesse o ecrã com uma figura críptica marcada fisica e psicologicamente pela vida, enquanto espera por alguém.
Desta vez é o “senhor contenção dramática em pessoa” a assumir a liderança de “Rebuilding”, Josh O’Connor, a nova coqueluche do cinema independente, que tanto brilhou para Alba Rohrwacher em “La Chimera”, como no bem recente “The Mastermind”, de Kelly Reinhart. De poucas palavras, mas inúmeras expressões que espelham um permanente tumulto interno (e até vergonha), O’Connor é Dusty, um cowboy que também carrega um poderoso fardo da vida. O seu rancho foi destruído por um incêndio devastador e tudo o que os seus antepassados construíram e adquiriram foi reduzido a cinzas. Enviado para um trailer park improvisado, num acampamento da FEMA (Agência Federal de Gestão de Emergências), este tímido homem encontra uma nova comunidade para recomeçar e reconstruir a sua vida e história, tentando manter ligação à filha, ainda criança, que vive com à ex-mulher na região.
Com os terrenos impraticáveis para a agricultura e pecuária, pelo menos durante os próximos anos, as portas de reabilitação do rancho e dos terrenos anexos são rapidamente encerradas pelas instituições bancárias, que recusam ajudar o homem no desejo de recomeçar a vida no local. Resta-lhe então pensar em alternativas, sendo o partir para o Montana a mais forte possibilidade. Porém, o fortalecimento da sua relação com a filha, com quem se diverte a, aos poucos e poucos, acrescentar elementos à sua habitação precária, vão criar uma nova força e a imaginar um futuro, com uma suave camada de nostalgia à mistura, ao local onde sempre viveu.
Existe uma grande ternura de Max Walker-Silverman para com as personagens que vão povoando o ecrã, todas elas com a vida reduzida a cinzas após uma tragédia de proporções dantescas. O que distingue particularmente o homem dos outros animais, já diria Harari, é a capacidade de cooperar com os outros e “Rebuilding” é uma pequena amostra disso, encontrando na força comunitária o ponto de partida para o rearranjo existencial pessoal.
Nesse aspeto, Max Walker-Silverman mostra o melhor da América idealista e teórica que ouvimos falar a vida inteira, onde qualquer um pode recomeçar a sua vida e prosperar. O filme não acompanha todo o progresso de Dusty (o tal prosperar), mas consegue levar o espectador consigo na sua jornada de desconstrução e construção das raízes básicas de ter um lugar junto aos seus. E nesse aspeto, com a ajuda de uma fotografia desarmante de Alfonso Herrera Salcedo, que tanto captura a beleza da vastidão como a dor (dos resquícios dos fogos florestais), e a banda-sonora com guitarra acústica de Jake Xerxes Fussell e James Elkington, Max Walker-Silverman consegue entregar ao espectador um objeto extremamente gratificante, nunca sendo, porém, o que chamamos de crowd-pleaser.




















