Não há volta a dar. Utilizando o humor mais básico, os clichés e os estereótipos, um filme ainda pode ser profundamente hilariante e, ao mesmo tempo, cerebral. The Parade é um exemplo disso e consegue viajar entre a comédia e o drama em dois tempos, fazendo-nos rebolar no chão a rir, mas também tocar emocionalmente.
No filme, estamos na Sérvia, um país marcado pelo comunismo, pela guerra e por uma autêntica paragem no tempo em termos sociais. Há anos que se tenta organizar uma parada gay, mas, numa sociedade extremamente conservadora, em que a polícia é cúmplice, as tentativas têm acabado sempre em atos bárbaros contra os homossexuais, continuamente espancados quando se assumem.
Aqui seguimos particularmente um casal gay. Um é ativista e também organiza casamentos. O outro é veterinário, tem um carro cor-de-rosa, mas mantém-se longe das reivindicações. O primeiro é alvo de vários ataques e agressões da extrema-direita. O segundo vai cruzar-se com um antigo veterano de guerra sérvio, apelidado de “Limão”, que lhe diz que o vai matar se ele não salvar o seu cão, que tinha sido baleado. Ora, Limão é um veterano de guerra — que já agiu como mercenário e agora trabalha como capanga — com casamento marcado, e a sua esposa exige uma cerimónia de luxo, digna de uma princesa. As coisas vão embrulhar-se de tal maneira neste filme que o homossexual vai acabar por organizar a boda do ex-militar. Em troca, este ajudará a que exista a primeira parada gay em Belgrado, fazendo de segurança.
A partir daqui começa uma verdadeira comédia de costumes, em que o machismo e a transgressão vão colidir com efeitos hilariantes. Mas o mais engraçado de tudo é que Limão vai ter de ir à Bósnia, à Croácia e ao Kosovo buscar alguns amigos para conseguir defender os homossexuais dos ataques fascistas na parada. Com laivos de road trip num Mini cor-de-rosa e quatro brutamontes no carro, e entre constantes piadas políticas ao conflito dos Balcãs, o filme flui como comédia, mas, à medida que se aproxima do desfecho, nós próprios acordamos para a realidade dramática daquilo que estamos a seguir. Sim, apesar de as personagens e a história serem ficcionais, foram realmente precisos 5000 polícias para travar 6000 neonazis e nacionalistas que queriam atacar cerca de duas centenas de participantes na primeira parada gay em Belgrado.
Realizado por Srdjan Dragojevic, The Parade deambula assim entre momentos de bastante tato e outros menos refinados, com várias referências cinematográficas que vão desde Ben-Hur a Os Sete Magníficos, mas isso torna a fita numa das obras mais abrangentes do passado recente. Se formos a ver, este género de cinema já não existe em Hollywood, que cada vez mais separa o humor físico e básico do mais cerebral com uma agenda.
Como tal, e concluindo, The Parade é um verdadeiro combo. É hilariante, tocante e um tremendo crowd-pleaser — venceu o prémio do público em Berlim — para toda a família.

