«The Parade» (A Parada) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
Não há volta a dar. Utilizando o humor mais básico, os clichés e os estereótipos, um filme ainda pode ser profundamente hilariante e ao mesmo tempo cerebral. «The Parade» é um exemplo disso e consegue viajar entre a comédia e o drama em dois tempos, fazendo-nos rebolar no chão a rir, mas também tocar emocionalmente.

No filme estamos na Sérvia, um país marcado pelo comunismo, pela guerra e pela autêntica paragem no tempo em termos sociais. Há anos que se tenta organizar uma parada gay, mas numa sociedade extremamente conservadora, em que a policia é cúmplice, as tentativas têm acabado sempre em actos bárbaros contra os homossexuais, continuamente espancados quando se assumem.

Aqui seguimos particularmente um casal de gays. Um é um ativista e também organiza casamentos. O outro é um veterinário com um carro cor-de-rosa, mas que se mantém longe das reivindicações. O primeiro é alvo de vários ataques e agressões da extrema-direita. O segundo vai se cruzar com um antigo veterano de guerra Sérvio (apelidado de “Limão”) que lhe diz que o vai matar se ele não salvar o seu cão (que tinha sido baleado). Ora Limão é um veterano de guerra – que já agiu como mercenário e agora trabalha como capanga – com casamento marcado (e a sua esposa exige uma cerimónia de luxo e digna de uma princesa). As coisas vão-se embrulhar de tal maneira neste filme que o homossexual vai acabar por organizar a boda do ex-militar. Em troca, este ajudará a que exista a primeira parada gay em Belgrado, fazendo de segurança. 

A partir daqui começa uma verdadeira comédia de costumes em que o machismo e a transgressão vão colidir com efeitos hilariantes. Mas o mais engraçado de tudo é que Limão vai ter de ir à Bósnia, à Croácia e ao Kosovo buscar alguns amigos para conseguir defender os homossexuais dos ataques fascistas na parada. Com laivos de road trip num mini cor-de-rosa e quatro brutamontes no carro, e entre constantes piadas políticas ao conflito dos Balcãs, o filme flui como comédia, mas à medida que se aproxima do desfecho, nós próprios acordamos para a realidade dramática da realidade que estamos a seguir. Sim, apesar das personagens e da história serem ficcionais, foram realmente precisos 5000 polícias para travar 6000 neo-nazis e nacionalistas que queria atacar cerca de duas centenas de participantes na primeira parada gay em Belgrado. 

Realizado por Srdjan Dragojevic, «The Parade» deambula assim entre momentos de bastante tacto e outros menos refinados (várias referências cinematográficas que vão desde «Ben Hur» a «Os Sete Magníficos»), mas isso torna a fita numa das obras mais abrangentes do passado recente. Se formos a ver. este género de cinema já não existe em Hollywood, que cada vez mais separa o humor físico e básico do mais cerebral com uma agenda. 

Como tal, e concluindo, «The Parade» é um verdadeiro combo. É hilariante, tocante e um tremendo «crowd pleaser» (venceu o prémio do público em Berlim) para toda a família.

O Melhor: É hilariante e tocante nas alturas certas
O Pior: Há situações e humor por vezes demasiado básicos
 
 
 Jorge Pereira
 

Últimas