Paolo Virzì é frequentemente associado a uma tradição italiana em que a comédia dramática de índole social serve de palco para revelar as fraturas de uma época, como se viu de Ferie d’agosto a Caterina va in città, passando por Tutta la vita davanti. Nos seus melhores filmes, como Ovosodo e Il capitale umano, o riso, quando aparecia, nunca era apenas um mecanismo de leveza, mas o jeito cáustico do cineasta em expor as divisões de classes, a precariedade laboral e as pequenas (grandes) falências morais de Itália.
Talvez por isso, o seu novo filme, 5 Segundos (Cinque Secundi), toque tão duramente no espectador, não porque abandone totalmente o olhar social, que continua numa segunda linha através do conflito entre ativistas idealistas e os mecanismos do capitalismo, mas porque retira de campo a verve cómica e mete em cena um drama existencial direto e pesado, daqueles que não deixam grande proteção para as personagens, nem para o espectador. Entrando por campos dolorosos que alguns cineastas italianos trilharam com precisão, como Nanni Moretti em O Quarto do Filho ou Daniele Luchetti em A Nossa Vida, os cinco segundos que dão título a este filme estão ligados à morte da filha de Adriano (Valerio Mastandrea), uma adolescente (Caterina Rugghia) com esclerose lateral amiotrófica.
Áspero e consumido pela culpa, este advogado entrou numa rota de autodestruição que se manifesta principalmente na sua incapacidade de reagir ao que lhe surge pela frente, seja a ida a tribunal para se defender no respetivo processo criminal, na sequência da acusação de negligência feita pela ex-mulher, seja a chegada de um grupo de jovens ativistas que ocupa uma propriedade vizinha com o objetivo de recuperar as vinhas abandonadas, ameaçadas por um projeto imobiliário ligado a um fundo.
Apesar de inicialmente se mostrar irascível com a companhia destes intrusos, em particular com a líder, Matilde, interpretada por Galatéa Bellugi, o isolamento autoimposto pela personagem começa progressivamente a desmoronar-se, não apenas porque os ativistas acabam detidos pelas forças policiais por ocupação ilegal, o que o leva a intervir, mas principalmente pela pressão e insistência de uma colega e amiga, Giuliana (Valeria Bruni Tedeschi), que dá maior profundidade ao campo afetivo de Adriano e força a personagem a confrontar-se com o passado.
Uma das maiores forças de Virzì reside em Mastandrea, um ator capaz de transportar em si, no olhar, nos gestos e na voz, uma opacidade que o afasta de uma figura monocórdica de sofrimento. Existe nele uma contenção e estranheza muito própria, como que perdido, semelhante à que atravessava Nonostante, que também realizou, onde uma certa secura e resistência ao sentimentalismo fácil servia para criar um homem que nunca se oferecia por inteiro ao olhar do espectador,
É a partir dessa presença fechada, mais do que em qualquer grande gesto melodramático, como se a culpa tivesse criado uma distância intransponível entre ele e o mundo, que 5 Segundos encontra a sua força. Virzì filma a culpa com frontalidade, apoiado num Mastandrea profundamente humano, mas nem sempre consegue impedir que o drama se feche sobre si mesmo,
Ainda assim, há algo de sincero e doloroso na tentativa de olhar para um homem que só ocasionalmente consegue regressar ao mundo dos vivos, na sua aproximação difícil a uma dor que não se resolve, mas que apenas se aprende a carregar.




















