Para todos aqueles que seguem a via de Diógenes, mesmo sem o saber, e que na sua “sacola” de intimidade acreditam firmemente que o amor e as relações são “coisas para gente desocupada”, “Nonostante”, o mais recente filme do ator e realizador Valerio Mastandrea, poderá provocar um valente “Hawk Tuah” no final da sessão, mas a verdade é que a fantasia que o realizador impõe, no meio de um romantismo tradicional melancólico, tende a levar o espectador até uma simples (mas não simplória) metáfora sobre a vida, onde a resignação e o medo de arriscar mostram-se como entraves à felicidade e vida.

Passado numa ala de um hospital onde se encontram doentes comatosos, “Nonostante” rapidamente nos apresenta um grupo de personagens envolvidos numa situação peculiar, onde as suas almas ou espíritos vagueiam pelo espaço à espera do regresso à vida, ou a cedência à morte. Nesse grupo peculiar, é a personagem interpretada pelo próprio Mastandrea, que mais tarde descobrimos estar assim porque levou com uma criança de 10 anos em cima quando estava a passear na rua, que tem sobre ela todos os holofotes emocionais. Entregue à mais profunda resignação de se encontrar num limbo já há bastante tempo, ele vagueia sem destino pelos corredores, terrenos do hospital e espaços da cidade de Roma, sempre com uma estranha sensação de liberdade de responsabilidades. Porém, um dia, a sua alma é confrontada com a chegada de outra, a de uma mulher com cara de poucos amigos, que o vai fazer mudar a perspetiva sobre a sua condição a partir de uma paixão avassaladora que o começa a consumir. 

A primeira ideia foi contar uma história excitante daquilo que mais nos entusiasma na vida: o amor. Pensamos de forma original sobre o tema, mas depois seguimos uma forma muito tradicional de o fazer”, explicou Mastandrea em Veneza, onde o seu filme inaugurou a prestigiante secção Orizzonti. “A nossa vida está repleta de histórias de amor mais interessantes do que tudo o que podemos imaginar. Decidi partir de um ponto absurdo com estas personagens com limitações de movimento num hospital. É uma metáfora ligada a pessoas que acham que levam uma vida banal, mesmo com o amor todo que existe à volta deles. Há pessoas que conseguem sair dessas caixas e ver o que existe do outro lado delas. E que melhor para sair dessa caixa e conhecer coisas fora das nossas vidas que se apaixonar? Apaixonar coloca-te perante as tuas fragilidades, vulnerabilidades e bravura para encarar isso. Se fores bravo o suficiente para lidar com isso de frente, a tua vida será melhor”.

Sustentando-se em duas atuações conseguidas dos seus protagonistas, Mastandrea e Dolores Fonzi, “Nonostante” – que pisca o olho para a “Milagre em Milão” de De Sica e leva-nos também ao recente “Il primo giorno della mia vita“, de Paolo Genovese – vai progressivamente construindo e mostrando o seu mundo fechado com histórias e personagens secundárias que não só enriquecem o tecido emocional, mas fazem ver à personagem de Mastrandrea, nunca nomeada, que ao encontrar o amor noutra pessoa, redescobre também o que tem por ele mesmo, impelindo-o a querer ir mais além, como que num último suspiro de vida. 

Fartas doses de música italiana e frequentes momentos de busca de poesia visual, que inclui uma dança voadora do protagonista, arrastado por um vento que não lhe augura grande futuro, dão a tonalidade correta e atmosfera propícia a um filme que, apesar de assumir como uma história de amor, entra pelos domínios do drama e da comédia, explorando os limites que os seres humanos se veem envolvidos.

Nisto, é assim criado um “crowd pleaser” peculiar, mas não original, que tem algo para dizer, mesmo que para muitos apenas o que entrega é pieguice e sensações primárias, as quais, cinicamente, podem-se sentir como exploratórias e até manipulatórias sobre a ocasionalidade da vida.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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