Leva mais de uma hora, bem mais, até Project Hail Mary revelar ao público uma amostra do perigo que serve de mote a esta jornada no espaço. Confia-se na dupla de realizadores Phil Lord e Christopher Miller (responsáveis pela franquia de animação Spider-Verse) quando, desde o início, lançam Ryan Gosling rumo ao infinito com a missão de salvar a Terra. Espera-se um novo Interstellar (2014), a obra-prima de Christopher Nolan centrada no sacrifício em escala galáctica. No entanto, no filme de Nolan, a ameaça — uma nuvem de poluição implacável — impõe-se antes dos primeiros 20 minutos, justificando uma odisseia que começa épica e evolui para uma história de amor. Ou seja, em vez de um pacto de confiança, espectador e realizador estabelecem uma aliança.
Em Project Hail Mary, essa confiança perde-se. A adaptação do romance homónimo de Andy Weir acaba por frustrar expetativas, sobretudo ao evitar um desenvolvimento romântico entre o protagonista e a cientista interpretada por Sandra Hüller. O argumento de Drew Goddard, excessivamente carregado de termos astrofísicos, complica uma narrativa que já parte de um conceito exigente.
A agente Eva encarrega o professor Ryland Grace de travar uma catástrofe global. Durante a missão, ele perde a memória e desperta sozinho numa nave, rodeado por tripulantes mortos. Aos poucos, recorda-se de ser biólogo molecular e de que o Sol está a perder brilho devido a um microrganismo — o Astrophage — capaz de provocar um arrefecimento global devastador. A sua única ajuda surge sob a forma de Rocky, um ser alienígena de aspeto mineral e forma aracnídea.
É na relação entre ambos que o filme ganha algum fôlego emocional. Até aí, a narrativa revela-se fria, excessivamente técnica e pouco envolvente. Apesar do esforço de Gosling, a montagem de Joel Negron compromete o ritmo, ao mesmo tempo em que os realizadores reprovam no exame de empatia.



















