Depois de ter dado nas vistas em A Sala de Professores e de ter sido intérprete improvisada em September 5, a alemã Leonie Benesch volta a encarnar uma profissão estruturante na vida comunitária: a de enfermeira, no drama alemão-suíço Late Shift (Na Linha da Frente), estreado na última Berlinale.

Num mundo do entretenimento, particularmente televisivo, saturado de dramas hospitalares — de ER – Serviço de Urgência a Anatomia de Grey, de Nurses a New Amsterdam — a representação da exaustão, do caos e da humanidade quotidiana destes profissionais tornou-se quase um subgénero por si. Ainda este ano, embora com diferenças importantes, o mais recente filme de Laura Wandel, L’intérêt d’Adam, mostrava igualmente esse caos, com a enfermeira Lucy (Léa Drucker) a lidar com um caso de negligência parental em pleno turbilhão de um serviço de urgência francês.

Inspirando-se no romance autobiográfico Our Profession Is Not the Problem. It’s the Circumstances, de Madeline Calvelage, Petra Volpe acrescenta uma perspetiva suíça que, embora eficaz na denúncia das falhas estruturais do sistema de saúde e da falta de profissionais, pouco altera o panorama do género e dificilmente deixará marcas duradouras na memória do espectador. Mais ainda: perante as condições técnicas do hospital retratado, as urgências portuguesas — ou até as gaulesas, como as de L’intérêt d’Adam ou La Fracture — parecem terceiro-mundistas por comparação, o que retira algum impacto ao filme para um público mais habituado ao caos real que já viveu.

Com um realismo social que raramente vai além da personagem central — de quem sabemos sobretudo que é mãe solteira a tentar sobreviver aos turnos e à precariedade emocional — Na Linha da Frente funciona, acima de tudo, como mais uma prova do talento de Leonie Benesch para interpretar mulheres resilientes, competentes e incansáveis, empurradas até ao limite por um sistema rígido e permanentemente à beira da rutura. O peso do hospital cai todo sobre ela, enquanto as restantes figuras — maioritariamente pacientes — raramente ultrapassam a superfície.

Trabalho com algum fôlego, de ritmo intenso embora nunca frenético, o filme adota uma estética que por vezes sugere a gímnica do plano-sequência, quando na verdade assenta no clássico walk-and-talk: Floria a percorrer corredores do hospital, a entrar em quartos, a enfrentar um desfile de interações e a tomar decisões que, por vezes, significam a diferença entre a vida e a morte. 

Entre gestos de cuidado e pequenos deslizes inevitáveis, ela vai tecendo laços de confiança, protegendo quem pode e amparando quem chega ao limite — enquanto ela própria se aproxima perigosamente do seu. É nesse frágil equilíbrio entre o profissional e o humano que Na Linha da Frente encontra os seus melhores momentos, mas a necessidade de encerrar todas as linhas narrativas para oferecer um desfecho “arrumado” enfraquece a sua dimensão cinematográfica. Sim, é um filme eficaz, competente e emocionalmente claro, mas sem verdadeiros riscos que poderiam elevá-lo a algo maior.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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