Envolvido numa polémica devido a acusações de assédio por parte da cineasta durante as filmagens, “Le Retour” usa um evento, tal como “La Fracture”, para invadir e discutir em terrenos sócio-políticos. Por isso mesmo, racismo, classes sociais, orientação sexual, privilégio, patriarcado e até questões territoriais particulares em França, como o caso da Córsega, onde a cineasta têm a sua origem, são temas chave numa obra que tem num drama familiar o seu epicentro.
Passado e filmado na Córsega, o drama começa com o regresso à ilha de Khédidja (Aïssatou Diallo Sagna), uma mulher com duas filhas que trabalha para uma rica família parisiense. Quando essa família a convida para tomar conta dos filhos no verão, ela decide voltar ao local onde conheceu o falecido marido, levando nessa jornada as duas filhas, Jessica (Suzy Bemba) e Farah (Esther Gohourou), agora adolescentes. A estadia na ilha vai-se mostrar reveladora, com segredos e mentiras a colocarem frente a frente a mãe e as filhas. Enquanto Khédidja luta com as memórias, as adolescentes se entregam às tentações do verão, descobrindo o amor e muitas verdades que estavam apagadas do seu passado.

Repleta de contemporaneidade, “Le Retour” não esquece ainda a emigração e os sentimentos de uma segunda geração que se revolta contra a forma como os pais foram tratados e o posicionamento social que lhes foi atribuído, procurando para eles outra vida. “Creio que a segunda geração de emigrantes passa um mau bocado em ter de aceitar os papéis, os lugares, que foram destinados aos pais quando chegaram, e como estes aceitaram, ou tiveram de aceitar, a forma como foram recebidos e tratados.”, disse Corsini ao C7nema em Cannes, dias depois da sua estreia na competição principal. “Houve regras estabelecidas para que os pais deles se pudessem instalar no país, sem poderem sequer questioná-las. Por isso mesmo, esta segunda geração procura outra coisa e vai lutar contra isso. Uma das formas de lutar contra isso é o que a Jessica faz, através dos estudos, para se tornar uma mulher de sucesso. Mas temos também os que lutam como a sua irmã mais nova, de uma forma diametralmente oposta. Existe assim um grande questionamento do ponto de vista político deste tema, da submissão que no passado a primeira geração de emigrantes sofreu. E essa submissão é completamente rejeitada não apenas pela segunda geração de emigrantes, mas também pela terceira geração. Existe assim uma consciência política dessa questão, que também está relacionada à miscigenação e às redes sociais, que permitiram o encontro e discussão política destes jovens que mostram orgulho naquilo que são.”
Corsini também admite que no seu cinema há um antes e um depois de “La Fracture” e que neste seu regresso a Cannes, dois anos depois desse filme estar também em competição, existe uma forte componente biográfica, quer dela, quer da coescritora do guião, Naïla Guiguet, que além de ter colaborado com a cineasta no passado e com outros nomes grandes da filmografia gaulesa, como Arnaud Desplechin e Louis Garrel, participou – há quatro anos -como realizadora na Semana da Crítica com a curta-metragem “Dustin”.
“Também tive a certo ponto da minha vida de voltar às origens e à casa dos meus pais, o que foi muito difícil pelas emoções e uma série de situações em que me vi reduzida. As atrizes sabiam que estavam a interpretar um pouco a história da minha vida e da da minha coescritora”, explicou Corsini, acrescentando que tentou mostrar a Córsega como uma personagem por si só, cheia de ambiguidades. “Este país – que não o é propriamente, mas chamo-o assim – tende a alienar as pessoas”, afirmou.
“Le Retour” é a terceira obra de Corsini a concorrer à Palma de Ouro.

