Apesar dos resultados estéticos infelizes que colheu com a sua expedição a uma Ucrânia em guerra com “Superpower”, Sean Penn encontra um trilho acurado, nos cinemas, na sua paixão pelo jornalismo, ao assumir a produção de um suspense baseado em situações reais que sabe pontuar com eficácia a engenharia das notícias: “September 5”. A figura da estrela nos bastidores de um estudo (moral) sobre os media ajudou a assegurar a carreira por festivais estrangeiros. É uma dramaturgia que evoca reflexões de Balzac, o escritor responsável por contextualizar as reportagens como jogos de olhares: “De manhã, sou da mesma opinião que o meu jornal, mas à noite penso aquilo que quero”, escreveu o autor de “Ilusões Perdidas”.
Tal perspectiva faz com que as narrativas de repórteres carreguem uma dinâmica panóptica, ou seja, trazem diferentes teses e distintas antíteses que, juntas, deveriam dar síntese, mesmo quando vetorizadas por situações trágicas. É o caso da cobertura mediática reconstituída por “September 5”, descoberta dos Orizzonti de Veneza, exibido na reta final do Festival do Rio: a crónica da morte anunciada rege os rumos do que há de ser noticiado. Como todos os filmes (bons) sobre a ação de jornalistas, qual “All The President’s Men” (1976), de Alan J. Pakula, ou “Mad City” (1997), de Costa-Gavras, é uma trama tensa (muito, aliás) sobre o controle da informação e o poder inerente a ela. Um poder que pode vir a libertar, pode encurtar extremos morais, mas pode (sobretudo) ampliar audiências, a um custo nem sempre ético. O realizador, o cineasta Tim Fehlbaum, conhecido por de “Tides” (2021), promove uma radiografia das estratégias noticiosas (e decisórias) de uma equipa televisiva numa linha ténue entre a jornada heroica e o debate sociológico, numa estratégia discursiva dialética (rica) capaz de expor as vulnerabilidades de figuras que olham o compromisso com a verdade como um ofício.
Numa abordagem claustrofóbica, quase 100% centrada no que hoje se chama switcher, a mesa de edição das imagens que vão ar numa TV, “September 5” conversa diretamente com factos narrados por Steven Spielberg em “Munich” (2005), a ponto de despertar um desejo forte de rever esse filme do artesão por trás de “Schindler’s List” (1993). O foco de Fehlbaum concentra-se nas horas que cercam uma ação terrorista cometida na Alemanha na noite de 5 de setembro de 1972, quando um grupo armado invadiu a Vila Olímpica dos Jogos de Munique e fez reféns os atletas da delegação de Israel. Na ocasião, uma equipa de jornalistas desportivos da emissora americana ABC estava em massa por lá, com o intuito de fazer o que deveria ser a primeira transmissão ao vivo das Olimpíadas. Roone Arledge era o executivo na linha de frente e cabe a ele decidir que rumos tomar diante do ocorrido: seguir a transmitir causos sobre as disputas ou concentrar a cobertura do crime que se desenhava?
Esse papel cabe ao sempre preciso Peter Sarsgaard, em mais uma atuação económica, atenta à essência existencialista dos dilemas da sua personagem. O conflito em questão envolve não só o compromisso de ser o representante de uma megacorporação (que precisa dar números altos de engajamento de espectadoras/es), mas a preocupação com a cifra alta de vidas em risco. No argumento escrito com Alex David e Mortiz Binder, Fehlbaum consegue imprimir uma angústia similar em outros satélites, como o produtor de reportagens Geoffrey Mason, vivido por John Magaro, e a repórter germânica Marianne Gebhardt, um poço de retidão profissional encarnado com brio por Leonie Benesch.
Num balé aeróbico de closes e planos gerais, a fotografia de Markus Förderer tonifica o clima convulsivo da montagem de Hansjörg Weißbrich com uma seleção cálida de cores, o que dá à longa-metragem um ritmo de panela de pressão em fervura. Os nervos de todos os que estão em cena comprimem-se pela responsabilidade de manter um broadcast crítico, atento aos rumos das negociações com os terroristas, e com medo de que os inocentes morram. A montagem joga inteligentemente com elementos documentais ao incorporar imagens de arquivo de Jim McKay, no programa “Wide World of Sports”, na narrativa. Uma narrativa que oxigena a linhagem de incursões cinematográficas ao universo de quem conjuga o verbo “noticiar” numa desinência humanista.
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