Depois de transformar o recreio de uma escola num verdadeiro campo de batalha pela sobrevivência em Recreio (Un Monde), tudo sob o olhar de uma criança vítima de bullying, a belga Laura Wandel regressa com outro filme incrivelmente tenso, filmado de câmara na mão, mas sem grandes tremeliques — finalmente essa moda parece ter deixado de o ser —, e que, desta feita, observa os quartos, corredores, casas de banho e até zonas de saída de um hospital pediátrico, para onde as mais diversas urgências encaminham os mais pequenos.

Não, não estamos perante um La Fracture, pois no centro de mais uma obra bem concentrada na sua duração — 1h18 — está Lucy, a enfermeira-chefe vivida por Léa Drucker em mais uma interpretação excecional, que permite que Rebecca, Anamaria Vartolomei em mais um papel de grande força, fique com o filho de quatro anos, Adam, para além do horário de visitas estabelecido por um juiz.

Na origem da decisão judicial de limitar o tempo que a mãe passa com o filho está o estado de saúde do pequeno rapaz, que, através da fratura de um braço, revelou estar profundamente desnutrido. Caracterizar o estado mental da personagem interpretada por Anamaria Vartolomei seria complexo sem conhecimentos na área da psiquiatria e/ou psicologia, mas, no essencial, o espectador vai descobrindo que a mulher se recusa a alimentar o filho com os alimentos necessários para um rapaz da sua idade, não acreditando sequer nos que são oferecidos pelo hospital e que teima em deitar fora.

Apesar de esta mulher pôr em risco a vida do filho, Lucy acredita que tem dois doentes pela frente, e não apenas um, demonstrando grande empatia pela jovem e tendo consciência de que o sistema — e as suas regras musculadas para, de certa maneira, prevenir ataques à conduta médica — não vai contribuir, a longo prazo, para uma resolução do impasse: Adam não quer comer sem a mãe ao pé, e esta não o deixa comer aquilo que os médicos definem como essencial.

Construindo o filme a partir de uma extensa pesquisa e observação de campo, a segunda longa de Laura Wandel é novamente muito atenta aos pormenores, fazendo cada minuto que passa, cada palavra dita e cada ação contar e arrepiar, sempre com a ideia de corrida contra o tempo depois de Rebecca se fechar na casa de banho do quarto de hospital com o filho.

Sempre com um olhar atento às ferramentas do realismo social, mas entrando novamente no género e, em particular, no cinema de suspense que nasce de um drama profundo ligado à esfera da saúde mental, Wandel entrega outro filme de múltiplas camadas — médicas, judiciais, sociais e humanas —, fazendo desta unidade de saúde pediátrica um novo campo de batalha e um espaço de negociação para uma resolução justa, menos dependente de protocolos. E, sim, tudo no interesse de Adam.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
linteret-dadam-o-regresso-fulgurante-de-laura-wandelConstruindo o seu filme a partir de uma extensa pesquisa e observação de campo, o segundo filme de Laura Wandel é novamente muito atento aos pormenores, fazendo cada minuto que passa, cada palavra dita, e cada ação das personagens contar e arrepiar.