Amparado em planos do firmamento, no azul solar das manhãs e tardes do deserto, Cielo estreou na Mostra de São Paulo de mãos dadas com a vocação do evento para divulgar o cinema de uma América do Sul de veias abertas pela herança colonial. A Bolívia é o seu território de ação, visto através do olhar do realizador catalão Alberto Sciamma, com um percurso — e prémios — firmados no domínio da fantasia, como demonstram Killer Tongue (1996) e Bite (2015). Não por acaso, cria aqui um híbrido de fábula e aventura sociológica, impregnado de poesia, nas veredas da tradição latina — sobretudo literária — do realismo mágico. Peixes que regressam à vida e trazem verdades são apenas alguns dos seus sinais do insólito.

Vencedor de três prémios no Fantasporto — Prémio do Júri, Prémio do Público e Melhor Fotografia —, Cielo articula-se de forma exemplar com a recente renovação do cinema boliviano, em curso desde 2022. Tudo começou com a conquista do Grand Prix de Sundance, em Park City, nos Estados Unidos, atribuída a Utama, de Alejandro Loayza Grisi. Na mesma altura, o conterrâneo El Gran Movimiento, de Kiro Russo, recebeu uma menção honrosa no IndieLisboa. Meses depois, foi a vez do doloroso El Visitante, ensaio antifundamentalista de Martín Boulocq, colher elogios e conquistar o prémio de Melhor Argumento em Tribeca. De Los de Abajo, Sciamma recuperou Fernando Arze Echalar, ator de ampla versatilidade dramática.

Esta euforia produtiva manifesta-se num momento em que o “Glauber Rocha boliviano”, o veterano Jorge Sanjinés, cronista das populações indígenas, regressa aos festivais. Ausente durante cerca de seis anos, voltou recentemente ao ecrã com Los Viejos Soldados. O regresso do octogenário realizador, que começou a filmar em 1961 com Sueños y Realidades, ilustra o modo como o país tem vindo a valorizar o seu cinema de autor. É neste contexto que nasce uma joia como Cielo, coproduzida com apoio britânico.

É hipnótico seguir as peripécias de Santa, uma menina de oito anos (vivida com intensidade pela jovem Fernanda Gutiérrez Aranda) no Altiplano boliviano. Após um infortúnio trágico, embarca numa atribulada jornada para levar a mãe ao Paraíso — literalmente. As duas tinham feito um pacto: quando a mãe morresse, Santa seguiria as estrelas e conduziria o seu corpo através do deserto rumo ao céu, um lugar que acreditavam ser tão real como qualquer outro. O argumento de Sciamma move-se, assim, numa linha ténue entre o possível e o improvável. Ao longo do caminho, transportando um tambor de conteúdo macabro, a menina cruza-se com um grupo de lutadoras profissionais de wrestling que a ajuda na sua travessia e com um polícia (interpretado por Arze Echalar) que a prende, mas acaba por suspeitar de que ela possui poderes mágicos — capazes de fazer uma vaca magra jorrar um oceano de leite. O agente da lei percebe então que, para alcançar a sua própria redenção, terá de se unir a Santa na sua busca por um lugar além do horizonte visível.

A fotografia deslumbrante de Alex Metcalf realça a beleza das paisagens por onde Santa passa, numa narrativa em que a direcção de arte dionisíaca é um esplendor à parte. Há milagres, há sangue, há pancadaria num espetáculo de luta livre feminino, mas não há exotismo. Sciamma procura, em cada situação filmada, o que há de mais humano — e de mais excessivo — na condição das suas personagens.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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