Filmado em 2019, numa parceria com o Uruguai, onde foi buscar o genial ator Cesar Troncoso (ovacionado em Cannes, há 15 anos, em “El baño del Papa“), o drama boliviano “El Visitante” é uma sequela artística da violência do fundamentalismo religioso latino-americano, que vem elegendo déspotas e milicianos na América do Sul, com um discurso de Deus, família e moral para todos. Essa sequela é contundente e necessária quando rejeita a subserviência por trás do jugo político evangélico, como se viu no premonitório Éden (2012), de Bruno Safadi. Mas a mirada para os abusos da fé que vêm entorpecendo o 21º Festival de Tribeca, garantindo ao evento nova-iorquino um dos exercícios de realização mais sóbrios e seguros da sua competição de longas-metragens internacionais, não se fixa em instâncias sociológicas, procurando mais (e melhor) a dimensão existencial e afetiva. Assim como fez no belíssimo “Eugenia” (2017), com o qual ganhou o prémio de melhor guião no Festival de Guadalajara, Martín Boulocq esforça-se em mapear as feridas motivas que levam os indivíduos à armadilha da dominação pelo acalanto das graças e da Graça. Aquilo que o homem fere, o Altíssimo cura.

Essa é a promessa que é feita a Humberto (Enrique Aráoz, num desempenho devastador), um presidiário recém-libertado que sai do cárcere e passa a ganhar a vida cantando em cerimónias fúnebres. O maior desejo de Humberto é reconstruir o seu relacionamento com a filha, hoje distante, e dar a ela uma vida decente, mas os avós da menina – pastores evangélicos – não estão dispostos a renunciar à custódia da sua única neta. A atuação de Troncoso no papel de um pregador é de deixar a plateia de Tribeca (e fora dela) atónita com as suas ferramentas cénicas, ressaltando a teatralidade espetacular dos cultos.  

A partir da premissa da luta de Humberto para se recolocar na sociedade civil, Boulocq faz uma reflexão (ácida) sobre os dotes da voz em instituições religiosas neopentecostais. O canto de Humberto e a saliva molhada a desespero das pregações ao Senhor carregam um tom de brado de guerra nas personagens, que pelejam pelo coração de uma criança, mas, também, pelo controle das atenções de uma comunidade desamparada pelo Estado.

Na direção de fotografia, Germán Nocella despe “El Visitante” do esturricado realismo quase documental do qual o cinema da América Latina lança a mão sempre que deseja se legitimar. Boulocq não precisa disso, uma vez que o seu filme se finca nas franjas do melodrama e o folhetim cuida de legitimar sua potência, galvanizada pela atuação de Troncoso e Aráoz.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
el-visitante-tribeca-em-marcha-para-a-boliviaUma sequela artística da violência do fundamentalismo religioso latino-americano, que vem elegendo déspotas e milicianos na América do Sul, com um discurso de Deus, família e moral para todos