Tem sido um ano de ouro para o cinema da Bolívia, muito impulsionado por certames norte-americanos que estrearam dois filmes deste país, iniciando percursos de sucesso no circuito festivaleiro: “Utama” brilhou em Sundance em janeiro, já conta com duas dezenas de prémios, e até já chegou a Portugal através do Fest; e “El Visitante”, que deu nas vistas em Tribeca, partiu numa tournée sem fim à vista. Além deles, “Los de Abajo” de Alejandro Quiroga deu que falar recentemente em Mar Del Plata, podendo ter iniciado uma carreira que se prolongará até 2023.
Esse brilho do cinema boliviano, uma cinematografia que normalmente no plano dos festivais tem encontrado em Kiro Russo o seu grande nome nos últimos anos – “Viejo Calavera” (2016) e “El Gran Movimento” (2021) saíram distinguidos no IndieLisboa, entre uma vintena de prémios que conquistou – ganha requintes de beleza (e aridez) extrema através da fotografia implacável de Barbara Alvarez (que fotografou “A Mulher Sem Cabeça” de Lucrecia Martel) em “Utama”, filme que visita terrenos comuns da cinematografia global, ao contar a história de dois idosos – Virginio ( José Calcina ) e Sisa ( Luisa Quispe ) – que habitam uma região inóspita da Bolívia, vivem da terra e criam lamas, mas que se recusam a abandonar o local, mesmo quando a seca extrema e problemas de saúde os colocam em xeque prestes a ser mate.
Não é de todo um tema ímpar, o que o cineasta Alejandro Loayza Grisi, entrega ao espectador, com cinematografias como a africana e asiática, além de sul americana, a debruçarem-se nas últimas duas décadas frequentes vezes sobre questões de ruralidade vs cidade, tradicional vs moderno, e as consequências desse confronto nas personagens trágicas que comandam as obras. “Utama” vai também por aqui, analisando através de diferentes camadas (antropológicas, sociológicas, políticas e artísticas) o tema da radicalização de formas de vida da população global, especialmente na era pós revolução industrial. E isto quando na Europa e EUA, o chamado primeiro mundo, um movimento em sentido contrário (da cidade para o campo, num regresso às raízes), normalmente saltando uma geração (aqui é o neto do casal que vem da cidade para os tentar convencer a ir com ele para lá), ganha cada vez mais adeptos, especialmente depois da pandemia Covid-19.
De uma beleza extrema que incomoda pela sua real significância (belas imagens de solo morto são artisticamente brilhantes, mas desarmantes no que representam), Alejandro Loayza Grisi faz cada imagem, som (a música vem de uma variedade de fontes locais e indígenas), e diálogo (conduzidos por não-atores) valer para passar uma mensagem que não é nova, mas que se torna suficientemente ímpar dentro da sua universalidade.
Por isso, “Utama” merece ser visto com atenção, pois apesar de ser apenas mais um de uma linhagem de filmes que frequentemente encantam festivais por nos levarem a lugares inalcançáveis (um World Cinema com o mesmo poder de atração que a chamada World Music), tem suficiente vitalidade para conquistar o espectador e fazê-lo prosseguir um diálogo que se requer permanente entre as formas tradicionais de vida e aquilo que nos tornámos, ou seja, as formiguinhas que têm de seguir para as cidades para poderem sobreviver.




















