À espera do regresso de seu cineasta de maior prestígio autoral, Jorge Sanjinés (desaparecido há seis anos, mas pronto para estrear “Los Viejos Soldados“), a Bolívia vive um ano de excelência no circuito internacional dos festivais, a começar pela conquista do Grand Prémio de Sundance, concedido a “Utama“, de Alejando Loayza Grisi. Isso foi lá em janeiro. Em maio, o IndieLisboa deu uma menção honrosa às alegorias sociológicas de “El Gran Movimiento“, de Kiro Russo. Depois, em junho, via Tribeca, Nova Iorque ofereceu ao doído “El Visitante“, ensaio antifundamentalista de Martín Boulocq, elogios, holofotes e a distinção de Melhor Guião. Agora, na reta final de 2022, Mar Del Plata joga as suas luzes sobre a potência de um tipo raro de naturalismo praticado pelo cinema boliviano – iniciado nos anos 1960, com Sanjinés – e que pode surpreender o júri da competição oficial frente à rochosa realidade de “Los De Abajo“. Alejandro Quiroga faz um estudo sobre o vampirismo capitalista ao se debruçar sobre a seca num povoado em que escorpiões e capatazes armados têm igual veneno.

Na opção de trilhar a rota ainda fértil do cinema de denúncia social, Quiroga dá a Mar Del Plata o que mais se asssemlha a um herói, mas numa tradição histórica que vem (numa ponte histórica com a literatura) da prosa de “Germinal” (1885), de Émile Zola. É o chamado “herói do rendimento“, a figura histórica que traduz a batalha de um contingente de classe contra os vetores da escassez, movido pelo sentimento (e por uma necessidade mais física do que  moral) de sobreviver. Essa é a figura encarnada por Gregório, papel que o ator Fernando Arze Echalada faz com retidão espartana. É, até aqui, a mais imponente atuação entre os filmes revelados pelo festival argentino.

Capaz gerar alusão ao seminal “Grapes of Wrath“, de John Ford (o filme mais pré moderno da História, lançado em 1940), “Los De Abajo” é uma espécie faroeste marxista sem tiros, com bicicletas no lugar de cavalos. Há pistoleiros, sim, mas do lado dos capitalistas, sintetizados na figura nefasta de um agente da gentrificação do campo, um cruel latifundiário vivido pelo argentino César Bordón (de “Relatos Salvajes“), o novo Danny Trejo do cinema, sempre usado em papéis de tipos maus e agressivos, como se vê agora em “Carvão“, hoje em cartaz no Brasil. A personagem dele quer oferecer uma ninharia pelas terras de pobres aldeões que sofrem com a falta de água.

Há tempos, Gregorio vai quebrar as pedras da região montanhosa (e esturricada) de Tarija, no sul da Bolívia atrás de uma possível mina de água. O recursos de H2O que ali existiam foram perdidos com desvios do rio para uma barragem. E Gregório perdeu muito com isso, inclusive sua mulher, que – acreditam alguns – pode ter morrido com a contaminação dos poços – ou de desgosto. É essa dúvida que leva o protagonista do filme de Quiroga a beber. E bebe muito. Mas também crê na mudança, na negação do clima determinista que o diretor dá à trama. 

Mas Gregório tem bons motivos, fora a sanha heróica que o espirito denuncista da longa dá a ele. Ele tem um filho pequeno. E pai de um menino que sofre hostilidades em sua escola, por vir de uma origem paupérrima. A cena em que o menino pede um pião ao pai é devastadora, e nos leva de “Los Olvidados” (1950), de Luis Buñuel, aos episódios mais chaplinianos de “El Chavo Del Ocho”, de Roberto Bolaños. E esse tráfego pela história só ilustra o quanto os problemas expostos por Quiroga são indícios de uma metástase contínua da exclusão. 

Embora esbarre em clichês que vieram do cinemanovismo latino (até o de Sanjinés) e incorra em sazonais obviedades, “Los De Abajo” se impõe como um filme necessário na biópsia ao cancro financeiro das Américas. E sua fotografia (precisa) foge de dispositivos documentais, num recorrente hibridismo com a ficção, buscando um colorido vivo. 

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
los-de-abajo-o-fosso-boliviano-do-determinismoEmbora esbarre em clichês que vieram do cinemanovismo latino (até o de Sanjinés) e incorra em sazonais obviedades, "Los De Abajo" se impõe como um filme necessário na biópsia ao cancro financeiro das Américas.