O que se viu de mais possante na dramaturgia audiovisual sobre a cultura dos gangsters, nos últimos dez anos, foi fabricado na Europa, à luz da autoralidade, sobretudo “Il Traditore”, de Marco Bellocchio, e “La Paranza Dei Bambini”, de Claudio Giovannesi, ambos vindos de Itália, em 2019. Nos EUA, pátria do filão do thriller dedicado a células mafiosas, o assunto deu mais que falar no streaming, com destaque para “The Irishman”, da Netflix (como deixar Martin Scorsese de lado?), e “Tulsa King”, com Sylvester Stallone, na Paramount +. Depois de a televisão americana (leia-se HBO, hoje MAX) se apoderar do tema, com “The Sopranos” e “Boardwalk Empire”, ficou difícil para o cinema encontrar uma nova frente para poder devassar o universo dos líderes criminosos marginalizados pelo processo social de distribuição de riqueza na América. O termo “novo” merece um grifo nessa genealogia pop quando se analisa um filme tão “fora do tempo” como “The Alto Knights”, que assegura atenção pela destreza da sua realização e (sobretudo) montagem, mesmo que ostente uma forma desconectada dos padrões contemporâneos. Como graça até seria possível dizer: é o melhor filme da década 1990 feito nos anos 2020. Como certeza, afirma-se: é o melhor filme de Barry Levinson (de longe!) que Barry Levinson nos devia desde o magistral “Wag The Dog” (1997).
A presença de Robert De Niro em dois papéis – não o De Niro careteiro, das comédias dos anos 2000, mas, sim, aquele existencialista de outrora, de “Heat” – assegura a entrega de combustível ao incêndio que Levinson deflagra no seio da História, ao revirar os crimes reais, praticados entre os anos 1930 e 1950, sob a lógica da aliança e do companheirismo. Este é um assunto recorrente na obra do realizador de “Rain Man”, que venceu o Urso de Ouro em 1998 e quatro Oscars. Faz parte da sua filmografia desde “Diner” (1982). É um tema constante também na literatura do nonagenário argumentista por trás de “Goodfellas” (1990) e “Casino” (1995), Nicholas Pileggi. É dele o guião que narra a quebra de confiança entre dois amigos que, um dia, fatiaram os lucros do submundo em tempos da Lei Seca.
Vito Genovese (1897-1969) e Frank Costello (1891-1973) são crias da besta-fera Charlie “Lucky” Luciano (1897-1962), mafioso temido, e travaram uma amizade brutal, daquelas amamentadas com o leite da afinidade e do respeito, até o momento em que precisam se afastar. Em 1937, em risco, Vito muda-se para a Itália, com planos de regressar brevemente, sem contar com a II Guerra Mundial nas trincheiras da Europa. Ele deixa Costello a cuidar dos seus negócios. Quando regressa, muito depois, espera encontrar as mesmas engrenagens que deixou, mas o planeta mudou e a máfia também deu algumas guinadas. A sensação de que foi traído por Costello leva-o a ensaiar um atentado ao homem que um dia foi seu aliado. É dali que rui todo um esquema de controle, o que enfraquece a dinâmica de poder dos ítalo-americanos que enriqueceram com a venda de bebidas ilegais.
De Niro interpreta os dois, num desempenho fulgurante, sem cacoetes, a partir das rubricas e dos diálogos de Pileggi, numa engenharia de memorialismo. É Costello quem revê o que se passou na sua vida depois de ser baleado a mando de Vito. Conta à plateia o que se passou e muda o que lhe é favorável. Imagens de arquivo, calçadas numa banda sonora estonteante, estruturam um grande memorial da desilusão, com foco num bandido que, apesar de ganhar a vida na senda da ilegalidade, mantém-se fiel a um código de conduta inquebrável, sem torpezas.
Não é Scorsese, nem o Coppola da trilogia “The Godfather” (1972-1990), nem o De Palma de “Carlito’s Way” (1993) o que vem à mente diante da saga que Levinson descortina em forma de conto moral e, sim, o próprio Levinson, um Levinson dos melhores: o esquecido “Bugsy” (1991), com Warren Beatty. Ali, ele falava de um sonhador que criou Las Vegas e, no ímpeto de ajudar os seus acólitos e seus (supostos) padrinhos, cai, empurrado no abismo pela falta de consideração de ambos.
Há um perfume dessa reflexão sobre os perigos inerentes ao verbo “crer” (no outro) em “Wag The Dog” e mesmo na obra-prima do cineasta, “Good Morning, Vietnam” (1987), só que num âmbito político que envolve a Casa Branca. Nos anos em que se dedicou à TV, curando as feridas de desastres comerciais (sobretudo “Bandits”, de 2001), Levinson afastou-se da retidão (técnica e estética) que lhe deu prestígio nos anos 1980 e 90. Reencontra as suas origens em “The Alto Knights” com sagacidade para empregar (bem) a carpintaria palavrosa de Pileggi e a fome de um octogenário De Niro por papéis tridimensionais. Peca na escolha de um elenco secundário de pouca exuberância, no qual o destaque único é Debra Messing como Bobbie, a esposa de Costello. Apesar disso, dá ao cinema das máfias um ânimo inesperado, ainda que apele para estratégias com cheiro de naftalina. O senso de espetáculo em que incorre é notável.




















