«La Paranza Dei Bambini» (Piranhas – Os Meninos da Camorra) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Baseado no livro de Roberto Saviano, Piranhas – Os Meninos da Camorra viaja ao mundo da deliquência e crime como uma opção de carreira.

A criminalidade, do “peixe miúdo ao graúdo”, já tinha sido abordada em Gomorra, livro de Roberto Saviano que Matteo Garrone levou ao cinema (e posteriormente teve a sua série de TV), mas neste Piranhas – Os Meninos da Camorra, baseado também num livro de Saviano, o peso da tradição familiar na entrada no mundo do crime dá lugar a bandidagem por opção de forma a satisfazerem os seus objetivos consumistas imediatos. É que por aqui o foco é a ascensão de um grupo de adolescentes – na casa dos 15, 16 anos – no submundo do crime, dos pequenos aos grandes assaltos e à liderança do tráfico de drogas ao melhor estilo da associação criminosa.

Na verdade, este é mais um ensaio do cineasta Claudio Giovannesi em torno da juventude, de adolescências problemáticas, da perda da inocência e da entrada num mundo com apenas 3 saídas possíveis: ser bem sucedido (rico e famoso), ser preso (ou tornar-se informador) ou morrer (às mãos da polícia ou de um grupo rival).

Embora inspirado no livro de Saviano, tal como nos seus trabalhos anteriores (Fiore) Giovannesi sentiu a necessidade do trabalho de campo e foi viver ano e meio para Nápoles, convivendo nos bairros onde decorre a ação com os jovens da Geração Y retratados e escolhendo alguns deles para protagonizarem este filme sobre jovens marginais, mas não marginalizados. É um descendente do neorrealismo, do cinema de Visconti, mas também do Marco Risi do final dos anos 80 e princípio dos 90 (Mery per sempre; Rapazes Vadios), com uma atualização aos tempos da Geração Z, onde a cultura dos videojogos, smartphones, ténis caros, o culto das armas e as selfies sobressaem como modas e necessidades transitórias que se precisam preencher.

Mas curiosamente, é naquilo que o filme não mostra que reside o seu maior poder, até porque esta história de ascensão criminal tem sido muito – e bem explorada – em inúmeras obras de paragens diversas. Basta lembrar Scarface, Um Profeta, A Malta do Bairro e Cidade de Deus, só para referir alguns. É, por exemplo, na estranha relação de Nicola com a sua mãe, com a sua namorada, e com todos no seu bairro, que o cineasta inspira a nossa imaginação através de ambiguidades, espaços por preencher que nos afastam de respostas, motivações, e sentimentos binários oferecidos de mão beijada. O mesmo se passa no relacionamento e transição entre os velhos e novos criminosos, mostrando que apesar das décadas passarem, a génese consumista e a eterna busca pelo poder continua a pairar sobre quem se mete nestas vidas de ascensão meteórica.

Por tal, e com uma maravilhosa ajuda de Daniele Cipri na cinematografia, que mantém o projeto bem agarrado a um tom realista e longe da espetacularidade ou glorificação videoclipes da “Thug Life“, que Giovannesi mostra-se bem sucedido, mesmo que a sua história seja uma bifurcação um pouco reciclada do que já se tinha visto em Gomorra.


Jorge Pereira

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