Eleito pela Itália para representar a pátria de Antonioni no pleito pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2020, O Traidor chega aos cinemas de Portugal esta quinta-feira

Depois de uma peregrinação pelo mundo iniciada em Cannes e coberta por elogios, sobretudo acerca da sua revisão das cartilhas das histórias de gangster, este thriller, coproduzido pelos irmãos Caio e Fabiano Gullane (Bingo, o Rei das Manhã), encontra-se mais próximo dos suspenses políticos de Costa-Gavras (como Z) que do tom épico de tintas românticas dos gangsters de O Padrinho (1972), e da criminalidade ordinária de Goodfellas: Tudo Bons Rapazes (1990).
O eletrizante O Traidor (Il traditore) fez o 72º Festival de Cannes repensar as suas certezas sobre a Itália, sobre o Brasil da ditadura militar e sobre os clássicos de máfia dos grandes ecrãs. E com as suas transgressões para factos históricos antes encarados como certezas inquestionáveis e para clichés celebrizados por Hollywood, a nova longa-metragem do realizador de Vincere (2009) colecionou fãs. Tanto que a procura pelo seu DVD é alta, para estes tempos em que essa media digital parece obsoleta.
Rodado parcialmente no Rio de Janeiro e interpretado por talentos brasileiros como Luciano Quirino, Jonas Bloch e uma Maria Fernanda Cândida em estado de graça, o filme revive os dias em que o mafioso Tommaso Buscetta (1928-2000) fez o Brasil de lar, no abraço sempre caloroso da sua mulher, a carioca Maria Cristina de Almeida Guimarães. Ela é vivida por Maria Fernanda. Tommaso foi confiado ao romano Pierfrancesco Favino (Guerra Mundial Z, Anjos e Demónios). Depois de elogios em revistas como Screen Daily e Variety, o prestígio de Bellocchio cresceu. A saga de Buscetta foi o segundo concorrente cannoise de 2019 com sangue verde e amarelo nas veias, exibido na França nove dias depois da consagração da joia pernambucana “Bacurau”, hoje em cartaz no Brasil.

Marco Bellocchio
“Heroísmo é uma palavra que eu atribuo a santos: estes se sacrificam pelo Bem, Buscetta, não, pois seu maior objetivo era salvar a própria pele e gozar dos prazeres do dinheiro que ganhou no Crime“, disse Bellocchio ao C7nema em Cannes, numa entrevista em que não escondia a fadiga. “Já não sou mais um jovem, viajei ontem e temos uma maratona hoje. Este é um filme sobre a dimensão trágica de um homem que usou a palavra para desafiar um império, a Cosa Nostra, em nome não apenas da própria salvação e da sua família, mas da deceção com o rompimento de pactos históricos de respeito da máfia a valores morais“.
Na crítica da Variety sobre O Traidor, Jay Weissberg ressalta a fotografia de Vladan Radovich para ampliar a beleza de paisagens cariocas como as areias de Grumari e para aumentar a voltagem das cenas de ação. Uma explosão de um carro, filmada sob a ótica do motorista, é um dos planos mais debatidos de todo o festival. O clima de tensão se estende ainda para as cenas da vida a dois de Buscetta e Cristina, pelas inesperadas intervenções da polícia e adversários de submundo na rotina deles.
“Há uma dimensão de lealdade amorosa muito forte dessa história entre Cristina e Tommaso que a fez desafiar a família, a sociedade e tudo o mais em nome do afeto. Às vezes, neste filme, eu me pergunto se a Maria Cristina reavalia as escolhas que tomou em nome desse amor“, disse Maria Fernanda Cândido ao Estadão nas filmagens do longa, no Rio. Em maio, ela subiu as escadas do Palais de Cannes vestida com um look Christian Dior que mobilizou as revistas de moda. “É impressionante o quanto o Bellocchio é aberto ao instante da criação, com uma disposição generosa de ouvir-nos [atores], de absorver as nossas ideias. Eu estou vivendo uma mulher culta, de uma família influente no Rio de Janeiro dos anos ’80, que teve a coragem de desafiar as convenções da alta sociedade carioca para ficar ao lado do homem que amava. Um homem envolvido com o crime”. Uma das cenas mais tensas de O Traidor traz Cristina pendurada em um helicóptero, sendo ameaçada pela polícia para que Buscetta confesse os seus crimes. Parceiro da atriz, Pierfrancesco rasgou-se em elogios à sua coragem: “Ela é de uma generosidade sem tamanho. Você vê na sua frente aquela mulher, dona de uma das belezas mais estonteantes do cinema, e se encanta com a disposição dela para se doar para o filme e para nós, em trocas constantes no set”.

Um dos pilares do cinema moderno na Itália, na geração que herdou as inquietações sociais do neorrealismo, Bellocchio foi aclamado pela crítica mundial já na sua estreia em longas, em 1965, com I Pugni in Tasca (De Punhos Cerrados, 1965). Mas nunca ganhou, em Cannes, uma láurea à altura do seu prestígio autoral, festejado por aqui em 2016, quando seu Sonhos Cor-de-Rosa inaugurou a Quinzena dos Realizadores. “Eu não tenho discursos lógicos da política ao falar de Buscetta pois me interessava mais o senso de espetáculo teatral, digno de Pirandello, dos julgamentos pelos quais ele passou. Era um circo em que a insuficiência de provas mudava os rumos do picadeiro de advogados e juízes“, explicou o cineasta, que, nos sets brasileiros, contou com a consultoria do diretor André Ristum (realizador de A Voz do Silêncio que, na juventude, começou sua carreira na Itália, como assistente de Bertolucci), para evitar erros de caracterização. “Tive que condensar pedaços da história de Buscetta no Brasil com liberdades e licenças poéticas que o cinema nos oferece. Esta produção custou € 9 milhões, o que só foi possível com o apoio dos parceiros brasileiros, alemães e franceses“.
Escondido no Rio dos anos 1980, sob outra identidade, para evitar um derramamento de sangue já que custara a vida dos seus filhos, Buscetta foi preso lá, na cidade que adotou como lar, acusado de tráfico internacional de drogas e extraditado. Conseguiu fugir da cadeia e retornou ao Brasil, de onde foi expulso pela segunda vez em 1983. Foi então que fez o acordo para delatar centenas de criminosos e expor as conexões da Cosa Nostra com a política italiana. “A traição de Buscetta, ao delatar a Cosa Nostra à Justiça da Itália, é carregada de ambiguidade. Ele não trai por uma conveniência. Ele trai porque, antes dele, com a entrada do tráfico de drogas nas atividades da máfia e uma guerra de sangue, alguém desrespeitou aquilo que antes era sagrado para eles. E o sagrado é, justamente, a palavra. A palavra da honra“, diz Bellocchio, “Sempre quis que O Traidor fosse um filme sobre escolhas. Este título pode parecer óbvio para alguns, mas ele sintetiza, de modo objetivo, algo que, na trama, assombra os pesadelos de Buscetta: dececionar seu passado“.

