Com uma carreira iniciada no cinema em meados da década de 1950 e uma filmografia que compreende mais de 50 obras, entre longas-metragens, documentários, filmes experimentais e obras para TV, o cineasta alemão Edgar Reitz, atualmente com 92 anos, mostrou em Berlim que a idade é um número e que vitalidade, sentido estético e o valor da palavra e do pensamento contam a cada momento do seu mais recente filme, “Leibniz – Chronicle of a Lost Painting”, uma pequena (grande) história que circula em torno do famoso matemático e filósofo Gottfried Wilhelm Leibniz,  e a encomenda de um quadro em sua honra, feita pela Rainha Carlota da Prússia em 1704.

Longe do biopic convencional, o vencedor da Berlinale Camera em 2024 e realizador de trabalhos como “Die Reise nach Wien”, “Stunde Null” e a série de filmes “Heimat”, sobre a vida na Alemanha de 1840 a 2000 através dos olhos de uma família da área de Hunsrück, confia no magnético Edgar Selge o papel de Leibniz, que na primeira interação que tem com o pintor Hofmaler Delalandre (Lars Eidinger) começa a questionar sobre a verdade e a arte, levando o vaidoso artista a abandonar a missão de transpor o pensador para a tela. “Não penses”, diz Delalandre, palavras que ecoam no espectador como uma piada quando pensamos a quem são dirigidas. Segue-se então, na lista de pintores escolhidos para a tarefa, uma flamenga, Aaltje van de Meer (Aenne Schwarz ), que tem que fingir ser um homem porque a guilda holandesa é puramente masculina e não a aceita. Na busca da “verdade” para retratar Leibniz, Aaltje não se limita às convenções formais da época, utilizando técnicas extravagantes para captar a sua essência, a começar logo pela escolha de uma tela negra prestes a ser iluminada com a presença do filósofo.

É na interação dos dois que Reitz não prima apenas por uma forma teatral da interpretação que parece ser arrancada da mente de Brecht, mas cria um objeto cinemático de exceção, capaz de iluminar (em tempos do iluminismo) a intimidade dos pensamentos de duas figuras que entram em discussões apaixonadas, não faltando referências ao pensamento de Leibniz, como “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis” na resposta ao problema do mal (que Voltaire parodiou em “Cândido ou o Optimismo” em 1759, via a personagem de Pangloss).

Numa das sequências mais marcantes, por exemplo, Van Der Meer cria uma câmara escura que invade o rosto de Leibniz, um momento de pura magia que, a par das deslocações suaves da câmara de Reitz, além de frequentes closes não invasivas que transmitem sensações profundas articuladas com as proposições das discussões, produzem um trabalho de abundante beleza, não apenas estética, mas na profundidade da palavra. O resultado é um filme que não apenas desconstroi a representação histórica do pensador, mas oferece um espetáculo notável de cinema que se pode chamar de clássico, mas nunca velho. A não perder.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
leibniz-chronicle-of-a-lost-painting-retratar-o-pensamentoReitz não prima apenas por uma forma teatral da interpretação que parece ser arrancada da mente de Brecht, mas cria um objeto cinemático de exceção, capaz de iluminar (em tempos do iluminismo) a intimidade dos pensamentos de duas figuras que entram em discussões apaixonadas