Não foi o nosso filho que se perdeu. Nós é que estamos perdidos nas nossas colinas, na nossa aldeia, na nossa casa”. É com estas palavras que Padam Singh, ou Bubu como vamos ouvindo ao longo do filme, o protagonista de “Pyre”, em competição no Tallinn Black Nights, situa a sua condição e a de Tulsi, a esposa, no topo de uma encosta virada para os Himalaias, onde vivem “desde sempre”. Ele tem 80 anos, ela 75 e há 65 anos estão casados. A localidade, que já teve muita vida no passado pelo volume de casas que agora vemos estarem devolutas, foi progressivamente perdendo população para as grandes cidades, incluindo a saída do filho do casal, há 28 anos. Filho esse que nunca mais voltou, mas que agora promete, via carta, regressar para os ver.

As últimas pessoas que restam por ali podem ser enumeradas apenas com os dedos de uma mão, destacando-se um carteiro, um jovem que espera ansiosamente por uma carta que lhe ofereça o emprego em Mumbai que tanto deseja, e os pais deste. Estes são os resquícios humanos, os filhos dos Himalaias, num espaço perdido no tempo, mas esplendoroso na sua vertente natural. Esplendor esse que a direção de fotografia acentua, transformando um conjunto fervilhante de emoções como a solidão, a perda, o abandono, o amor e a resistência num poema visual belíssimo, que ainda assim não supera o fervor humano de um conjunto de personagens esmagadas pelo isolamento e solidão, mas que se agarram a uma esperança inexorável. 

Com um domínio excecional da câmara e atenção ao detalhe, seja na escolha de ângulos, seja na exposição de sentimentos e na utilização do humor por parte de um casal que nunca nos convence que não o é, o realizador Vinod Kapri (Pihu, 2016) captura a essência da fragilidade humana, confrontando a mortalidade (das pessoas e dos lugares) e a absoluta necessidade da esperança para seguir em frente quando o final dos tempos se aproxima e estamos prestes a tornar-nos em pó e memórias. E o realizador fá-lo com muito coração, mas sem nunca cair na exploração ou manipulação emocional, utilizando para isso não apenas as atuações poderosas dos seus protagonistas, mas um ferramental dramatúrgico e cinematográfico cirúrgico onde o isolamento geográfico tem igual correspondência no isolamento emocional. 

E, apesar desta ser uma história à beira dos Himalaias, há tudo de universal nela na forma como apresenta a morte de um certo tipo de vida, tal qual como filmes como “Utama” (Bolívia) e “Return to Dust” (China) o fizeram recentemente. Mas nenhum atingiu a força emocional deste “Pyre“. A não perder.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
pyre-perdidos-nas-colinas-na-aldeia-e-na-sua-propria-casaCom um domínio excecional da câmara e atenção ao detalhe, seja na escolha de ângulos, seja na exposição de sentimentos e na utilização do humor por parte de um casal que nunca nos convence que não o é, o realizador Vinod Kapri (Pihu, 2016) captura a essência da fragilidade humana