O bullying é o centro de todos os problemas em “TKT” (T’inquiète), terceira longa-metragem da belga Solange Cicurel, que depois de estrear na Bélgica em outubro chegou ao Tallinn Black Nights, fora das competições principais e com as jovens audiências do certame na mente.

Emma, ​​​​de 16 anos, frequenta uma escola secundária em Bruxelas. Ela vai ser o alvo generalizado de bullying e o espectador começa a conhecer a sua história quando ela entra em estado de coma num hospital, logo no início. Os pais questionam “como nunca repararam em nada”, dando pistas para o espectador que não foram causas naturais que a levaram até ali, mas si uma tentativa de suicídio. Além de nós, quem também assiste a tudo é a própria Emma, qual alma a vaguear pelo purgatório da sua condição entre a vida e a morte, e que vai nos conduzir a todos os eventos que ocorreram na sua vida até ter tomado aquela decisão.

Destinado a abranger o maior número de espectadores jovens numa jornada pelas salas de cinema e salas de aula onde tem sido apresentado como filme de alerta quanto ao bullying, “TKT” não tem preocupações estéticas de entregar um objeto fundamentalmente cinematográfico, mas antes de se apropriar da linguagem de objetos audiovisuais construídos para o pequeno ecrã como “Sex Education” para através de uma linguagem padronizada atraente para o seu público alvo conquistar as atenções. Por isso mesmo, “TKT” sente-se sempre mais um telefilme de “mensagem” e “alerta” que um objeto cinemático de excelência com preocupações artísticas na sua fusão de drama e mensagem de cariz social, recorrendo à gímnica do fantástico, não fosse a nossa protagonista assistir a partir do além ao que lhe está a acontecer na realidade.

Ainda assim, e apesar de reduzido na sua dimensão estética, a léguas de filmes como “Recreio“, de Laura Wandel, ou “Blind Spot“, de Tuva Novotny, “TKT” tem algumas preocupações e cuidados narrativos que vão um pouco além do caracterizar as personagens nos rótulos do bom, do mau ou do vilão. Seja na posição de vítima, seja na de bullies, o filme tem cuidado nas ténues linhas que se cruzam, oferecendo um retrato de vilania, mais numa lógica do ser sem saber ou não se aperceber, que no campo do premeditado ou do mal inerente, ganhando nisso realismo e um selo de fuga à exploração sensacionalista, levantando mais questões em vez de as responder.

Lanna De Palmaert, no papel de Emma, destaca-se no elenco perante um guião que é acima de tudo superficial na construção de personagens e eventos, e que mostra sempre que o seu foco principal é alertar para um problema. Com tudo isto, no uso do cinema como arma de ensino e alerta, “TKT” é eficaz. Mas quando encaramos o cinema como uma ferramenta artística que explora personagens e eventos com preocupações plásticas e formais além de fazer chegar uma mensagem ao espectador, então é um objeto que fica bastante aquém do exigível.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
tkt-alerta-contra-o-bullying“TKT” não tem preocupações estéticas de entregar um objeto fundamentalmente cinematográfico, mas antes de se apropriar da linguagem de objetos audiovisuais construídos para o pequeno ecrã como “Sex Education” para através de uma linguagem padronizada atraente para o seu público alvo conquistar as atenções.