«Blind Spot» por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

É díficil falar sobre Blind Spot sem descrever a grande reviravolta que acontece a um terço do filme, quando, após o final de um treino de andebol e uma conversa entre duas colegas em tempo real, a obra subitamente muda de “protagonista”. Se há interesse independentemente de querer ler o restante texto, é melhor não ler mais para além deste parágrafo, porque este é definitivamente daqueles filmes melhor apreciados às cegas. 

O filme permanece sempre em tempo real, sendo este um auxiliar na tensão, suspense, e drama nos seus procedimentos. Tuva Novotny, numa estreia impressionante logo por querer mergulhar na gímnica de filmar toda a história em “um take” (curiosidade: o filme teve três dias de filmagem, sendo filmado três vezes, em três takes contínuos, sendo aproveitado o melhor de três), mostra-nos também vários close ups para maximizar ainda mais a nossa empatia, enquanto vai tentando explicar motivações para a tragédia ocorrida. A partir do segundo terço é a figura maternal de Pia Tjelta que comanda o ecrã e tem respostas para dar, e a atriz percorre aqui uma vasta gama de risco, num registo que pode soar a exagerado nos momentos mais trágicos, mas depois entendemos que, nunca passando por esta situação concreta, fica muito difícil julgar. O espectador está aqui quase num papel de médico, vai ficando ao corrente do contexto com base nos depoimentos das pessoas mais queridas à jovem, aparentemente mais depressiva do que a primeira meia hora mostrava, um registo importante para muitos retratos por esse mundo fora que conseguem, por força de vontade (ou por cobardia?), colocar uma máscara mais positiva perante os poucos amigos que possam ter… 

Novotny escolhe uma não-resolução, uma ambiguidade final se pudermos chamar isso, que soa a traição face ao drama entretanto espremido e ao facto de, ainda assim, termos tido acesso a uma história de fundo para tentar justificar uma situação que poderia não ter simplesmente justificação tão fácil como a que é aqui apresentada. Blind Spot é ainda assim um feito técnico impressionante, só é pena é que a rigidez da técnica acabe por encerrar o filme numa jaula experimental, ficando limitado narrativamente pela restrição temporal, e podendo até testar a paciência de uns.  

 

André Gonçalves

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