Se for verdade que “O medo é o pai da moralidade”, como afirmava Nietzsche, de que maneira a dinâmica do temor poderia se manifestar num território que, eclipsado pela condenação da finitude, no risco de um apocalipse iminente, extinguiu o prazo de validade da moral vigente, limitando a ordem apenas à instância do trabalho e à instância armada da Lei? Essa pergunta assombra “Enterre Seus Mortos”, um filme de terror brasileiro aberto ao misticismo, revelado na competição oficial do Festival de Sitges, em Espanha, mas exibido agora no Festival do Rio. Com uma destreza cirúrgica na condução de planos, Marco Dutra, o realizador, leva a audiência a um terreno instável onde o perigo vem do Além, das entranhas do processo civilizatório. Esse terreno chama-se Abalurdes. A cidade fictícia que serve de arena à longa-metragem é uma terra onde os animais morrem a cada minuto, alguns por acidentes rodoviários, mas muitos por um certo fenómeno catastrofista (pincelado, mas jamais detalhado) que atesta o fim do mundo. Quem mora por lá – na inércia inerente à certeza de que a Terra está nas suas horas finais – parece aceitar o fado de que não há muito o que fazer. Há quem beba, há quem se deleite com a performance de uma cantora de bar de letras terminais e há quem reze. Tem algo próximo a uma seita por lá, com direito a uma bebida qual um chá do Santo Daime, em cerimónias com aura de ritual. Há também foguetes no céu. São veículos que, supostamente, deveriam transportar os mais endinheirados para longe dali. É o que diz um homem (vivido pelo cineasta Caetano Gotardo) já nas sequências iniciais, ao sofrer após ter atropelado um cavalo enquanto corria para (tentar) embarcar para o Amanhã, para longe. Ou seja, tem de tudo em Abalurdes. Só não existe amparo. Não por acaso, o mais próximo de um herói que existe por lá é um catador das carcaças dos animais, Edgar Wilson, personagem que extrai de Selton Mello uma atuação perturbadora, de silêncios e retidão. Os fantasmas que seguem Edgar vivem no seu inconsciente, entre lampejos de memórias e a recordação dos feitos de um assassino de máscara. A sua cabeça é tão fraturada quanto aquela cidade de pasto verde, mas de trilhas secas.

Abalurdes nasceu da prosa de Ana Paula Maia, romancista conhecida por livros como “De Gados e Homens” que, fala de homens duros, abrutalhados pelas asperezas de um mundo onde ajudar o próximo não é parte das regras trabalhistas. De novo, Nietzsche é bem-vindo aqui, quando nos diz que os diamantes um dia foram um carvão que endureceu. As brasas de Wilson viraram pedra. Sobrou-lhe o carinho cinéfilo pelo seu filme preferido (“Titanic”) e um flerte com a chefe, Nete (Marjorie Estiano), que sofre de um problema cardíaco: há um risco do seu coração crescer a ponto de explodir. Wilson acha isso bonito. Vê ali uma metáfora do amor. Gosta de Nete, que sofre com as reações estranhas que ele tem, no sono inquieto, de despertar com uma faca na mão, a balbuciar estranhezas sobre as visões que o assuntam. É um modo de estar que irrita a tia de Nete, papel de Betty Faria, numa atuação taciturna, de movimentos corporais que lembram um bailado. As suas palavras são contidas, contadas a gotas.
A única pessoa de destaque em Abalurdes que fala muito é de um padre excomungado sempre às voltas com as bravatas de um exorcismo malfadado: Tomás (Danilo Grangheia, em atuação estonteante). O ex-sacerdote é colega de ofício de Wilson e tem por ele carinho de amigo, uma fraternidade discreta. A sabedoria dos seus tempos de batina não se faz notar tanto. Foi afogada na bebida choca que alcooliza o hálito, desqualificando unções. O seu perfil evoca o do pastor Jesse Custer da banda desenhada “The Preacher”, de Garth Ennis, na qual um pastor tinha como melhor amigo um vampiro, num Oeste em frangalhos.
Toda a fauna de gente estranha, inspirada pelos escritos de Ana Paula Maia, vitamina a geografia simbólica de Abalurdes e faz dessa província em agonia o palco para uma Comédia Humana que espelha muitas vicissitudes do Brasil, a começar pelo fundamentalismo religioso. Esse espelhamento, entretanto, não é refém de normas sociológicas como se vê na quase totalidade das incursões da América Latina pelas veredas do horror, com as (notáveis) exceções de José Mojica Marins (o Zé do Caixão) e Rodrigo Aragão. Dutra não entregou ao cinema uma dissertação de mestrado filmada (como muitos dos seus conterrâneos fazem) e, sim, um espetáculo fílmico (dos mais assombrosos), sem pudor de explorar situações místicas na ordem do macabro, capaz de evocar pérolas como “The Wicker Man”, de Robin Hardy. Ele já havia arranhado esse lugar antes com o elegante “As Boas Maneiras” (Prémio do Júri em Locarno, em 2017), feito em dupla com Juliana Rojas. Com ela, o cineasta realizou o filme síntese (“Trabalhar Cansa”, de 2011) da corrente chamada “extra-ordinária”, hoje tão em voga no cinema indie, representada por títulos como “Swallow” (2019) e “Shapeless” (2021). Nela, situações sombrias não são justificadas por quesitos sobrenaturais ou científicos. É o mistério pelo mistério, um pouco como se via em “The Lost Highway” (1997), de David Lynch. Agora, na sua nova expressão autoral solo, como fez em “Quando Eu Era Vivo” (2014), Dutra abre-se à metafísica, com elementos satânicos. O Diabo escreve-se com letra maiúscula na gramática. O Tinhoso ronda Wilson. E como não iria fazê-lo uma vez que encontra um cenário perfeito para isso no desolamento de uma realidade árida, onde a fé gravita na esfera da loucura?
Estruturado sobre uma direção de arte dionisíaca (de Ana Paula Cardoso) e pautado por uma fotografia sem rédeas, ora plenamente crua, ora cheia de chiaroscuros barrocos, assinada pelo Rembrandt português Rui Poças, “Enterre Seus Mortos” desbrava caminhos novos (e refrescantes) para o cinema fantástico brasileiro ao criar um mundo particular, bem seu, conectado à literatura de Ana Paula Maia. Farol daquele país, Glauber Rocha (“Terra em Transe”) dizia que o “realizador é quem faz filme; cineasta é quem cria universos”. Nessa lógica glauberiana, Dutra inaugurou um microcosmo particular, de tipos inquietos, construídos por um elenco em estado de graça. A partir desses tipos, ele leva-nos a refletir sobre a possibilidade restante de empatia que sobra quando entramos em modo de erosão. Abalurdes é um Brasil onde o futuro é uma hipótese incerta. Ali, nem Bolsonaro se cria, pois o Diabo não deixa. O chão ali tem dono: foi encomendado pelo Inferno. Edgar Wilson é o sintagma vivo da escassez da esperança, que veta ao espírito humano a chance de qualquer metamorfose evolutiva. Só lhe resta a violência. Esse relato selvagem é expresso em cena como um filme rascante – e envolvente.


















