Cumplicidade é a palavra que permite maior aprofundamento na dramaturgia de “The Room Next Door” (O Quarto ao Lado), mais do que “eutanásia”, termo (polémico) que lhe serve de tema e tem ajudado a popularizá-lo, uma vez que a controvérsia em torno do “controle sobre a própria morte” é um anzol para captar atenções. Não que Pedro Almodóvar necessite disso, uma vez que a cada novo filme– sobretudo na atual fase em língua inglesa iniciada em 2020 com “A Voz Humana” – é um imã dos holofotes mediáticos. Apesar do seu prestígio inquestionável, a sua associação a um dos assuntos que mais gera fraturas nos debates sociais e políticos ampliam a sua visibilidade para outros territórios – éticos e médicos, sobretudo. Some a isso o facto de a produção ter conquistado (com todos os méritos) o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2024. A láurea, que o artesão autoral manchego merecia há muito, chegou por meio de um exercício de elegância pleno, mais contido (leia-se “formalmente depurado”) do que ele jamais foi. Só o subestimado “Julieta” (2016) trazia um Almodóvar tão sereno – e tão cinéfilo – no trânsito pelos códigos do melodrama.
A recorrência dos verbos “perecer” e “partir” na medula espinhal do enredo justifica os takes de luz mais outonal (sem aquele colorido almodovariano retinto de outrora) na fotografia de Edu Grau, que filtra o olhar barroco habitual do realizador de “Hable con ella” (Oscar de Melhor Argumento em 2003). Há momentos em que as cores típicas do cineasta transbordam, seja num casaco de um tom rosa vibrante ou no batom que enrubesce os lábios de Tilda Swinton. As elipses, marcas gramaticais da sua obra, vão e voltam ao longo da narrativa, numa montagem sempre cálida de Teresa Font. A temperatura da montagem nunca ferve em demasia, à exceção de uma sequência (de viragem no roteiro) em que um policia de credo fundamentalista (Alessando Nivola) entra em cena. O calor habitual dos almodramas (um termo cunhado pelo cantor Caetano Veloso para definir a filmografia de Pedro) não se aplica a “The Room Next Door”. O clima de Nova Iorque (cidade citada como epicentro geográfico das personagens) pesa nessa mudança, assim como pesa a conversa sobre perecimento. Só a banda sonora, composta por Alberto Iglesias, por vezes aquece a sinestesia da película, que se baseia no romance “What Are You Going Through”, de Sigrid Nunez.
Em diálogo com ela, Almodóvar conduz-nos ao processo de (re)aproximação de duas amigas há muito distantes. No meio do lançamento de um livro novo, a escritora Ingrid (Julianne Moore) fica a saber que a correspondente de guerra Marta (Tilda Swinton), de quem era íntima, está doente. Elas trabalharam juntas na mesma revista, mas Ingrid tornou-se uma romancista de autoficção, enquanto Marta consagrou-se em coberturas jornalistas de confrontos armados. A notícia de que Martha tem cancro leva Ingrid a procurá-la.
Tudo corre com doçura no reencontro, mas quando a quimioterapia deixa de surtir efeito, Marta decide toma ruma pílula que acabe com a vida – com dignidade, sem sofrimento. O medo e a solidão do fim fazem com que peça ajuda à antiga colega, uma vez que várias outras amigas lhe recusaram o auxilio. Para isso, as duas têm de ficar juntas numa casa, no campo, isoladas. É nesse momento que a personagem de Julianne abre-se para um oceano de inquietações existenciais. A questão moral e até certo ponto criminal (segundo a Lei, nos EUA) não incomoda Ingrid. O seu incómodo é ver alguém de que gosta (muito) partir. A atuação colossal de Julianne Moore é amplificada na troca com uma figura que galvaniza os conflitos do filme: o seu ex-amante e atual amigo, um autor de ensaios teóricos interpretado por um John Turturro em estado de graça.
Nas raias da amabilidade, o ensaísta ajuda Ingrid a repensar a estética inerente ao verbo morrer, sendo “cúmplice”, o verbete tão essencial a um Almodóvar que politiza as escolhas e celebra a necessidade humana de conforto, sobretudo nas horas finais. Trata-se de um amadurecido Almodóvar que, embora ronde a filosofia socrática (o “só sei que nada sei”), faz citações explícitas à prosa de James Joyce e a uma obra-prima que John Huston filmou a partir da sua literatura, “The Dead”, de 1987. Igualmente tocante é uma menção a Buster Keaton e ao seu humor cinemático.
A passagem de “The Room Next Door” pelo Festival de San Sebastián coincidiu com a entrega do prémio honorário Donostia ao cineasta, pelo conjunto de uma obra que alcançou o apogeu melodramático com “Todo sobre mi madre” (1999) e, agora, caminha por novas veredas, por outra língua, mas com o mesmo viço.

















