Se há afirmação concreta que podemos efetuar perante as evidências é que, essa realidade imaginada a que chamamos  “cinema da Geórgia”, pelo que nos chega dos festivais de cinema internacionais, respira saúde no meio da “estranheza”. Olhando só para os últimos 4 anos, Déa Kulumbegashvili (Beginning) deu que falar em Cannes e triunfou em San Sebástian em 2002. Seguiu-se Juja Dobrachkous a concorrer ao Tigre de Ouro em Roterdão com “Bebia, à mon seul désir”; Alexandre Koberidze a disputar o Urso de Ouro de Berlim com  “What Do We See When We Look at the Sky?”; Levan Koguashivil a sair premiado de Tribeca com “Brighton 4th”;  Ioseb “Soso” Bliadze a aterrar em Karlovy Vary para a estreia mundial do seu “Otar’s Death”; e “Blackbird Blackbird Blackberry“, de Elene Naveriani, a viajar à Quinzena dos realizadores e a conquistar Sarajevo no ano passado. 

É bem possível falta-me citar um ou outro filme, mas o país com uma tradição (e imaginação) cinematográfica invejável, onde não podemos esquecer os nomes de Sergei Parajanov, Otar Iosseliani, Nana Jorjadze e Vasil Amashukeli, tem mais um trunfo na manga para nos entregar: Tato Kotetishvili, um diretor de fotografia transformado em realizador que levou até Locarno, e venceu a Cineasti Del Presente, “Holy Electricity”. Agora na competição principal do Festival de Sarajevo, há quem diga que a Geórgia pode fazer o bis no certame e conquistar nova distinção.

Festivais e prémios à parte, “Holy Electricity”, é fascinante, quer pela pequena história que conta – dois primos falidos que começam a vender cruzes com luzes neon-, quer pela linguagem cinemática que o realizador aplica, fundindo ficção e o estilo documental, atores e não atores, e cenas exteriores e interiores em locações reais e fabricadas, que durante escassos 95 minutos nos levam à alma de uma nação presa entre o passado soviético e o presente, e entre os velhos pensamentos religiosos e patriarcais, com os novos de liberdade identitária. Já os dilemas capitalistas, esses aprofundaram-se.

No centro desta história está Gonga (Nika Gongadze), um adolescente desengonçado cujo pai acaba de morrer. Será o seu parente transgénero mais velho, Bart (Nikolo Ghviniashvil), que vai tomar conta dele. A dupla passa o tempo à procura na sucata de coisas que possam comercializar, multiplicando-se na cata de objetos, desde que os possam vender. É numa dessas visitas às lixeiras que descobrem uma pilha de crucifixos, a que Gonga decide adicionar luzes neons que se vão revelar um sucesso.

No ato de vender essas cruzes, em feiras ou num bater de porta a porta em Tbilisi, vamos ver o pulsar do país, tudo capturado por Tato Kotetishvili com uma beleza e estranheza quase etnográfica. Mas o sucesso da dupla, que até em momentos se imagina numa Ted Talk a falar das suas cruzes luminosas, é minado pelas dívidas constantes que Bart hesita em pagar, isto porque o seu vício no jogo o deixou muito além da bancarrota e nas mãos de agiotas.

O filme perde algum gás quando narrativamente a dupla se afasta para seguir caminhos difusos de busca romântica – Gonga interessa-se por jovem vendedora de etnia cigana (Angela Delisenko), enquanto Bart se apaixona por uma artista fascinada pela sua criação do “nascimento do mundo” (Ineza Tsomaia), mas o olho cinematográfico pelos espaços e pessoas que o realizador se apaixona durante o seu trajeto, consegue nos agarrar até ao término do filme, até porque, contrariando o que se diz popularmente, nem de todo o caos nasce a ordem. E Tato Kotetishvili parece muito pouco interessado em ordem. E ainda bem.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
holy-electricity-as-cruzes-com-neons-que-iluminam-o-cinema-da-georgia “Holy Electricity” é fascinante, quer pela pequena história que conta - dois primos falidos que começam a vender cruzes com luzes neon-, quer pela linguagem cinemática que o realizador aplica