Rotulações são sempre problemáticas e normalmente aplicadas com maior rigor com alguma distância temporal e a olhar para trás, mas é inevitável não falar de uma novíssima “vaga” de cinema made in Georgia que está a galvanizar festivais de cinema em todo o mundo, especialmente nos últimos 12 meses.

Primeiro foi Déa Kulumbegashvili (Beginning) a fazer parte do lote 2020 de Cannes e a triunfar em San Sebástian, seguindo-se Juja Dobrachkous a concorrer ao Tigre de Ouro em Roterdão com “Bebia, à mon seul désir”, Alexandre Koberidze a disputar o Urso de Ouro de Berlim com  “What Do We See When We Look at the Sky?”, Levan Koguashivil a dar que falar (e sair premiado ) em Tribeca com “Brighton 4th”, e agora  Ioseb “Soso” Bliadze a aterrar em Karlovy Vary para a estreia mundial do seu “Otar’s Death”.

E independentemente de sair ou não premiado da secção East of the West, a passagem pela República Checa já deu ao jovem cineasta uma distinção no KVIFF Eastern Promises pelo seu segundo projeto – Tina & Megi – que concorria como Work in Progress.

Carregado de contrastes estilísticos, onde o realismo é atropelado (palavra correta) por um comprometimento psicológico que é transcrito visualmente na forma mais plástica e explicita de alienação, “Otar’s Death” segue a história de duas famílias unidas por uma tragédia e que seguirão rumos bem distintos, entre os altos e baixos, após o evento. 

Sem nunca apontar o dedo ou seguir rumos éticos ou moralistas, o olhar do cineasta explora os efeitos do ato em cada uma das famílias e nos seus membros. De um lado temos uma mãe e um filho fustigados pelo atropelamento praticado por este último, o de um idoso chamado Otar. Do lado de Otar, familiares levantam-se de imediato com um pedido de compensação monetária e, o que levam a vida de mãe e filho por caminhos mirabolantes e complexos (de relações, interações e confrontações) que alteram a sua rotina e relação para sempre.

É no acompanhamento paralelo das duas famílias e das suas personagens após o atropelamento que o filme vincula o espectador a um estudo que vai além das personagens e atinge dois blocos familiares que muitas vezes caem numa autoavaliação irónica, satírica e frequentemente negra. Bliadze permeia a sua história com uma distinção visual entre um realismo clássico e uma explosão artificial de cores saturadas quando transportar para o ecrã, particularmente, o estado psicológico dos miúdo de 16 anos cuja vida mudou para sempre

O resultado é um filme duro, equilibrado e rejuvenescedor na análise à culpabilidade individual e coletiva, mas igualmente um estudo de estruturas familiares que pareciam emperradas e inertes perante uma inevitável mudança.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
otars-death-chave-de-mudancaSem nunca apontar o dedo ou seguir rumos éticos ou moralistas, o olhar do cineasta explora os efeitos de um atropelamento em cada uma das famílias como um todo e nos seus membros individualmente.