Existe algo de bastante frustrante nos dois mais recentes filmes do realizador alemão Christoph Hochhausler, “Till The End Of The Night”, que encerrou a Berlinale em 2023, e “Death Will Come”, na competição ao Leopardo de Ouro no Festival de Locarno. Ambos os filmes exploram submundos do crime na Europa, enchem-se de referências cinematográficas para a criação de atmosferas “noir”, mas esquece-se que essas mesmas referências advinham de um sentimento de época que foi moldando artistas.

No drama “noir” do ano passado, Fassbinder servia de farol; em “Death Will Come”, parece ser Melville e a restante armada “noir” francesa dos anos 50 e 60 que inspiraram o realizador alemão para um thriller, que diluição atrás de diluição das suas referências, se apresenta finalmente demasiado insípido.

Não vamos pegar no “limite de Avogadro” e dizer que estamos perante um “limite Hochhausler” (há dezenas de nomes nas plataformas atuais que serviam de melhores exemplos), mas “Death Will Come” é fundamentalmente um pastiche diluído de intrigas com criminosos e uma assassina contratada às avessas, sem nunca refletir-se como um relevante, espetacular ou meramente interessante para o seu tempo, mesmo que no seu enredo até um negócio de bonecas sexuais associadas a realidade virtual esteja presente.

Também não ajuda o cineasta alemão o desenvolvimento que a indústria da TV, até mesmo a europeia, tem tido nas últimas décadas, sentindo-se assim esta “homenagem” não apenas ultrapassada, mas moldada – nos tempos atuais – para o pequeno ecrã.

Ora, num ano em que “Hit Man”, de Richard Linklater, trouxe frescura no olhar sobre os assassinos contratados, e boa parte do mundo se enamorou por um concorrente turco (Yusuf Dikec), de pistola apontada e mãos nos bolsos, nos Jogos Olímpicos, o lançamento de “Death Will Come” traz um enorme cheiro a bafio e ranço no sabor, não apenas pela construção precária e derivativa das personagens, mas principalmente pela história e atmosfera nunca parecem estar em sintonia na busca de contemplação, reflexão ou apenas entretenimento passageiro. E por mais que Sophie Verbeeck, no papel da assassina, tente cumprir um papel revelador de extrema eficácia, rigor e carisma, a personagem escrita para si soa a um fato já usado e reusado vezes sem conta, sem qualquer nota distintiva.

Por isso mesmo, esta história que começa com a detenção de um estafeta que transporta um quadro valioso e dinheiro camuflado, passa por casas de alterne, advogados corruptos e barões do crime sempre na luta pela primazia, chega até nós recheada da mais pura banalidade. Uma banalidade que até podia preencher uma prateleira de um videoclube ou servidor de streaming, mas não a seleta competição internacional de um festival de cinema como o de Locarno.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
death-will-come-mais-um-tiro-falhado-por-christoph-hochhauslerEsta história que começa com a detenção de um estafeta que transporta um quadro valioso e dinheiro camuflado, passa por casas de alterne, advogados corruptos e barões do crime sempre na luta pela primazia, chega até nós recheada da mais pura banalidade