Acabou na manhã desta sexta a seleção de competição ao Urso de Ouro, num fecho que acreditava ter namoriscado com o “cinema de género”, a fim de oferecer a uma plateia entupida de dramas afetivos códigos que se aproximam de fórmulas históricas de sucesso, como é o caso da cartilha dos policiais. Porém, essa é a apenas a aparência de “Till The End Of The Night”, drama noir de origem alemã, liderado por Christoph Hochhäusler. É apenas um dado mal processado do seu DNA. A potência trágica que promete ter nos 15 minutos iniciais se acanha, freia e desmaia, da mesma maneira como a burocrática fotografia de Reinhold Vorschneider desperdiça a chance de criar a grande crónica da vida noturna da Alemanha que há muito se espera no cinema contemporâneo, e que só foi levemente arranhada no “3” de Tom Tykwer, de 2010.

Queridinho do Festival de Cannes, que exibe os seus filmes (“I’m Guilty” e “The City Below”) na Un Certain Regard, Hochhäusler é um realizador nascido em Munique, há 50 anos, cujo olhar se interessa pela dualidade no jogo das aparências. Confiar é o verbo que ele utiliza nas suas reflexões acerca da traição e deceção. Mantém-se autoral ao se agarrar a essa linha no seu novo filme, mas perde-se ao apostar em demasia em referências a Rainer Werner Fassbinder (1945-1982). A opção em se atear a uma narrativa de desterro amoroso, enche a longa-metragem de alusões (ainda que acidentais) ao legado do mestre do melodrama, conhecido por “Lili Marleen” (1981), “The Bitter Tears of Petra von Kant ” (1972) e outras jóias.

Numa arena dramatúrgica explicitamente queer, com direção de arte fassbinderiana, o filme se afoga no fel ao narrar a luta de um cozinheiro, Robert (Timocin Ziegler, excessivo) para salvar o amor de sua vida, a ex-presidiária Leni (Thea Ehre), da cilada criminosa armada na ligação dela com o submundo das drogas, quando tentava “transitar”, de modo a pagar uma operação de implantes de silicone. A incapacidade de Robert em lidar bem com a mudança física de Leni, por quem se apaixonou quando ela ainda tinha uma identidade social masculina, chamando-se Leonard, garante a este thriller ultrarromântico uma rica camada de discussão sobre transfobia e aceitação. Mas o guião é emperrado. A escrita feita pelo guionista Florian Plumeyer não se decide entre a sua dimensão policial e a sua natureza de crónica afetiva, freia o que se candidatava a ser um sólido projeto de análise comportamental do bem-querer no mundo contemporâneo. O que se salva é o bom desempenho de Thea.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
till-the-end-of-the-night-o-fecho-frustrante-para-a-competicao-de-berlimReinhold Vorschneider desperdiça a chance de criar a grande crónica da vida noturna da Alemanha que há muito se espera