Muito similar a “The Last King of Scotland” (2006) na sua investigação sobre os sintomas de brutalidade inerente à pobreza, agora em contexto americano, “Bob Marley: One Love” é rico em nutrientes políticos, mas carente das vitaminas do afeto. Falta-lhe o transbordamento que faz da biopic musical um filão dos mais rentáveis no mundo na atualidade. Longas-metragens de abordagens estéticas e de materiais humanas singulares como o “Variações”, de João Maia (de 2019), ou o recente “Mamonas Assassinas: O Filme”, alcançaram fartura na venda de bilhetes por regarem o solo do melodrama com água em abundância, parecido com o que se viu, no passado, em “La Bamba” (1987) ou “Selena” (1997). O segredo parece estar no excesso, como comprova o fenómeno sem par de “Bohemian Rhapsody”, épico biográfico de Freddie Mercury (e da banda Queen), orçado em 52 milhões de dólares e transformado em campeão de bilheteiras ao chegar aos 910 milhões de dólares, coroando-se ainda com quatro Oscars. Numa esteira similar veio “Rocketman” (2019), sobre Elton John, que teve a sua largada em Cannes.
Noutra via, mais “elegante”, ainda que igualmente hiperbólica na representação de afetos incontinentes, aparece o ‘I’m Not There” de Todd Haynes, sensação do Festival de Veneza de 2007, hoje pouco lembrado. Aliás, o mesmo Haynes usou a engenharia da elegância para dar vida ao glam rock de David Bowie no seu “Velvet Goldmine” (1998). Mas, no geral, as longas que falam de músicos em conflito tendem a picos de sacarose e banhos de choro, até o luso “Bem Bom” (2021), de Patrícia Sequeira, sobre as Doce. Cabem aí também o “Meu Nome É Gal”, de Lô Politi e Dandada Ferreira.
Esses filmes têm um apelo histórico. A chave desse apelo pode ser aberta com um causo ligado ao realizador do excepcional “Perfect Days” (Prêmio do Júri Ecuménico de Cannes, em 2023): Wim Wenders. Ele mesmo também fez biopics, só que documentais: “Buena Vista Social Club” (1999) e “Viel Passiert – Der Bap Film” (2002). Ao trabalhar com o guitarrista Ry Cooder, em “Paris, Texas” (1984), Wenders aprendeu uma lição que virou lema: “O rock’n’roll salva vidas, pois mostra o limite entre o tédio e o vazio existencial”. “Bob Marley: One Love” não liga ao rock’n’roll, ao se concentrar no reggae, a partir do seu maior expoente, contudo, é feliz ao sintonizar as suas ambições narrativas com a premissa do realizador alemão supracitado (e seu ardor geracional). Ou seja: a música salva.
Esse ideal analgésico permeia cada plano da reconstituição ficcional dos feitos de Robert Nesta Marley (1945-1981), conduzida por Reinaldo Marcus Green, realizador de “King Richards” (2021). Apesar do orçamento associado à produção ser de 70 milhões de dólares (de acordo com fontes diversas), o que se vê parece fruto de um regime orçamental diminuto, incapaz de dar conta da grandiosidade exibida na recriação da Jamaica de 1976 a 1978 (com paragens em Londres e Paris) onde o enredo se passa.
Logo na abertura, Green opta por uma cartela de texto (looooonga) que resume, numa série de parágrafos, a carreira do jovem Marley e a crise social da nação jamaicana, cindida sob uma guerra civil violenta. “One Love” interessa-se mais sobre ela do que sobre a construção do mito de Marley, desperdiçando a persona messiânica associada ao músico por fãs (e também pela História). O desperdício agrava-se com a escolha do ingês Kingsley Ben-Adir, o Malcom X de “One Night In Miami” (2020). O inegável domínio das ferramentas de composição dramática que este tem não encobre a sua ausência de carisma. Ele é engolido em cena por Lashana Lynch, brilhante atriz que vive Rita Marley, companheira de vida e de palco de Bob.
Aliás, ela e o filho Ziggy Marley são creditados na produção, que se apequena na luz pálida, por vezes bruxuleada da cinematografia do fotógrafo Robert Elswit, que é um dos pontos mais fracos do filme, dificultando qualquer possível ambição de que ele se torne um espetáculo catártico. É um filme que implode, funcionando mais como aula de geografia sobre as crises na Jamaica e sobre a filosofia rastafári do que como retrato de um ídolo que foi porta-voz de um sonho de integração pelas leis de Jah, uma divindade capaz de expiar o mundo das suas dores. A menção no início deste texto ao doído “The Last King of Scotland” – pelo qual Forest Whitaker ganhou o Oscar, no papel do ditador Id Amin – vem pela forma como ambos os filmes partem da medida geográfica de Terceiro Mundo para fazer a cartografia de um povo e dos seus representanntes, no Poder ou na arte. No filme com Forest, Id Amin é o produto de um Uganda repleto de fantasmas coloniais. Marley também se depara com esses espectros e entende o quanto eles arrastam as correntes da falta de equidade financeira e legal no seu território de berço. Não por acaso, fala-se a toda a hora do preconceito contra os rastafáris, numa sequela de racismo institucionalizado. Esse debate mantém “One Love” vivo, apesar da anemia na sua porção mais “populista”.
No guião confuso escrito por Terence Winter, Frank E. Flowers, Green e Zach Baylin, o público tem aulas sobre a perspectiva filosófica rastafári, numa acertada dimensão didática, que compensa a incapacidade de explorar as dimensões existenciais de Marley. Há o dilema de sair da Jamaica, a fim de procurar novas estratégias para uma nação despedaçada, e há uma série de flashes (desconexos) de um passado pouco explorado pela realização, tratado mais como vinheta alegórica do que como um espaço cronológico capaz de desenhar a personagem central. Ben-Adir complica ainda mais a construção desse desenho, sem descer ao âmago de Marley. Ele consegue destacar-se nas sequências de ação física, sobretudo na dança. De resto, não saímos da superfície, relegando um totem da paz a um tabu do cinema mainstream: um heroísmo que não se abre a dialéticas e nos é imposto. Marley merecia mais.
É no uso de imagens documentais que a montagem mais – e melhor – se destaca, valorizando sempre a aguerrida figura de Rita, como parceira de lutas (e sonhos) de Bob. A atuação de Lashana é um primor. Em quesitos técnico-artísticos, a engenharia do som é impecável, em especial nas sequências dos espetáculos do cantor.



















