Ao cartografar a ideologia da sociedade industrial, traduzindo os seus sintomas de esvaziamento no termo “O Homem Unidimensional”, título do livro que publicou em 1964, o filósofo ligado à Escola de Frankfurt Herbert Marcuse (1898-1979) captura a compulsória submissão dos grupos sociais aos ideais do capitalismo, sob o entorpecimento do consumo e as suas formas de criar cordeiros e fazer nascer aves de rapina. Ele acreditava: “Muitas coisas não merecem ser ditas e muitas pessoas não merecem que as outras coisas lhe sejam ditas: o resultado é muito silêncio”. É a esse lugar de merecimento, na dimensão predatória dos ditames capitalistas, que pertence o anti-herói triste e emudecido, vivido sabiamente pelo sueco Joel Kinnaman em “Silent Night”.

Trata-se de uma experiência radicalíssima com a cinemática responsável por trazer John Woo de volta aos ecrã. A cicatriz na traqueia da personagem de Godlock, caracterizado de modo pífio via uma maquilhagem preguiçosa, amplia a unidimensionalidade apontada por Marcuse no render das subjetividades às legislações do mercado. A lei reinante na trama escrita por Robert Archer Lynn (de “Adenaline”), filmada em modo de autor por Woo, parece ser a de Talião, o “Olho por olho, dente por dente” da Bíblia. Contudo, é por meio de convenções mercantilistas que o protagonista se vinga da morte do filho. A mais grave delas é o consumo de tutoriais do YouTube para ensinar internautas a se tornarem mestres no uso de lâminas. Igualmente consumerista é a decisão da personagem em gastar o que existe de armas nos mercados piratas. Ou seja: pagou, matou. Faz lembrar o cinema de cunho catastrofista, calcado no vigilantismo, do inglês Michael Winner (1935-2013), que filmou “Death Wish” (1974). A diferença aqui é a virtuosa habilidade de Woo para enquadrar e girar a câmara numa mise-en-scène capaz de desafiar as leis da Física.

Barroco como os melhores filmes do realizador (“Hard Boiled”, em especial), “Silent Night: Vingança Silenciosa” (ou “O Silêncio da Vingança” no Brasil) usa e abusa do chiaroscuro na sua direção de fotografia, estruturada por Sharone Meir, de “Whiplash” (2014). É nas trevas que o unidimensional Godlock abraça a sina de dar o troco aos assassinos do seu rebento, um miúdo que morre através de uma bala perdida, numa troca de tiros. É impossível não pensar no filho morto do agente Sean Archer (John Travolta) em “Face/Off” (“A Outra Face”), de 1997. Esse é, para uma farta ala da crítica, a obra-prima de Woo. Existem muitos ecos dele em cena na longa-metragem protagonizada por Kinnaman, ao se destacar a figura da mãe enlutada.

No supracitado “Face/Off” esse arquétipo era encarnado por Joan Allen e, aqui, é (bem) esculpida por Catalina Sandino Moreno. Ela é a medida de humanidade desta produção, por encarnar as agruras solitárias das forças maternas que não contam com o apoio dos companheiros na hora da melancolia, na mortalha de uma perda. A sua personagem é destroçada pela morte da criança. Acaba por ser destroçada novamente pela fraqueza do amado, que se reduz a um fantasma encarnado. Fica nessa condição até o apelo da justiça. Apelo esse que Woo retrata de forma mordaz, ao expor o envenenamento do seu anti-herói pelas benesses do verbo comprar. Sem qualquer dote de guerreiro, Godlock vira um Charles Bronson em cerca de sete meses, usando apenas as ferramentas da internet, em vídeos de luta e aulas de tiro.

Narrador experiente, Woo não deixa esse aspecto passar do guião a filme sem ironia: Godlock é a falha em pessoa. Erra os tiros, leva pancada, é derrubado pelo corpo de um criminoso, sofre e sangra. As suas tentativas de combate ao crime, muitas vezes frustradas, rendem sequências irónicas, mas que não deixam nada a desejar ao histórico bélico espartano dos filmes sufocantes feitos pelo realizador sob a égide de Hong Kong, como “A Better Tomorrow” (1986), ou a de Hollywood, como “Hard Target” (1993), com Van Damme. Não falta também ao cineasta um olhar crítico em relação à barbárie xenófoba que o seu justiceiro torto e trôpego espalha: todos os seus algozes são imigrantes latinos que se viciaram. É imediata à alusão a “Windtalkers” (2002), filme da Segunda Guerra Mundial com Nicolas Cage como soldado ao lado de uma tropa indígena alvo de racismo.

Não se trata de um filme de ação convencional. Trata-se de um estudo sobre uma psique que se fraturou, acompanhada pela subtração da sua voz, por conta de um tiro à altura da garganta. A ausência de falas faz com que Kinnaman (um ator ainda pouco valorizado, a julgar pelo ótimo “Sympathy For The Devil”) apele para todo o seu gestual e ponha a teste a sua máscara plástica. O seu Godlock é um pai assombrado pela ausência do abraço filial, forçado pelo desespero a matar. Como todas as personagens de Woo, ele arrasta grilhões, alguns existencialmente bem pesados, e, como é praxe no cinema deste artesão da brutalidade, derramar sangue não lhe garante a transcendência. A beleza de “Silent Night” reside aí: na rejeição ao código de redenção de um género muito dorido. Um género que Woo recicla com esplendor.  

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Rodrigo Fonesa
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