Uma das boas surpresas de 2023, pelo caráter caustico como mostra uma Marrocos orientada para as regras selvagens do capitalismo, despertando enormes disparidades sociais e o fim de um mundo rural tradicional, “Déserts” de Faouzi Bensaïdi escolhe como protagonistas do seu filme dois complexos anti-heróis: Mehdi e Hamid, que andam pelas paisagens marroquinas mais pobres a tentarem recuperar créditos em dívida para uma instituição bancária.
Tudo vale para esses homens tentarem recuperar o dinheiro, seja ao tirarem um tapete da uma família, que parece ser o seu único bem ativo, seja uma carrinha que agora funciona como casa de um dos devedores, expulso da sua habitação pela esposa.
Tragicomédia inventiva na sua forma de farsa, que requisita muitas vezes o estilo sarcástico de Elia Suleiman e o humor negro dos irmãos Coen, “Déserts” deambula entre as dinâmicas do road movie cómico e o western vingativo, trata cada enquadramento, sequência e plano de forma criteriosa, casando as palavras do guião com uma força estética requintada que grita Cinema em toda a sua duração.
Mehdi e Hamid, em conluio com as diversas personagens com que se cruzam na sua jornada, são eles, ao seu jeito, vítimas e carrascos de um sistema que afunda quem vive nas zonas rurais. E quando a dupla de credores, cada um com problemas pessoais, onde não falta o sentimento de abandono (emocional e institucional), se cruza com um temível assassino capturado numa bomba de gasolina, o filme parte para uma nova rota e muda o seu foco nas personagens a seguir, mas não na sua intenção de retratar a precariedade num mundo patriarcal em transformação e a violência associada a isso.


















