Encarada como promessa para o estrelato, a inglesa Daisy Jazz Isobel Ridley teve a carreira atolada no fiasco pop que foi a entrada de J. J. Abrams no universo “Star Wars”, de 2015 a 2019, num intuito de fazer dela uma sucessora de Luke Skywalker – de quem a sua personagem, a jedi Rey, era aprendiz. A trilogia lucrou, muito até, mas menos do que o esperado, não ganhou os Oscars ambicionados e caiu em desgraça aos olhos dos mais ferrenhos fãs do universo de Darth Vader. Sobrou ela procurar uma reinvenção em pequenas produções, de verbas minúsculas como “The Marsh King’s Daughter”, orçado em 1,6 milhões de dólares. Nos EUA, a bilheteria de arranque mal passou dos 900 mil dólares. Ela entrou no projeto substituindo a sueca Alicia Vikander e viu a carreira da longa-metragem naufragar, sem muito empenho de marketing da Lionsgate, a distribuidora. Apesar dos números, apesar dos sufocos, é uma narrativa que surpreende em alguns pontos, técnicos e dramatúrgicos.
Na direção de fotografia, Alwin H. Küchler oferece uma paleta de cores vasta para a charneca filmada por Neil Burger, num diálogo com as cartilhas do suspense que dá taquicardia à força da montagem de Naomi Geraghty. Existe ainda um efeito especial vivo que faz cada sequência pegar fogo, chamado Ben Mendelsohn. Ele é o pivô do drama existencial e do perigo que rege a angústia da personagem de Daisy, Helena Pelletier. O enredo guarda semelhanças com “Room” (“Quarto” ou “No Quarto de Jack”), que deu o Oscar a Brie Larson em 2016. Ambos falam de crianças criadas em cativeiro. A do filme com Brie era um miúdo. Aqui, a vítima já está adulta, embora vejamos a sua prisão domiciliar dos tempos de criança.
A partir de um romance de tom caça-níqueis de Karen Dionne, o filme de Burger (realizador do inesperado sucesso “The Illusionist”) dialoga com uma fábula, a tal “Filha do Rei do Pântano“, na qual uma menina salva um rei. Aqui, uma área pantanosa serve de cenário para um passado de trevas de Helena, no qual ela foi confinada com a mãe, sob os auspícios de um pai psicótico, Holbrook (papel de um sublime Mendelsohn), aprendendo a ser uma só com a natureza. Um longo calvário passa com as duas até Holbrook ser preso. Helena cresce, forma família, tem a chance de ser feliz. Porém, como afirma o aforisma do dramaturgo Flávio Marinho: “Sempre existe um mas…”. No apogeu da felicidade de Helena, Holbrook foge. A sua fuga é o estopim de um novo momento de horror.
Na transposição da prosa de Dionne, Elle Smith e Mark L. Smith preocupam-se menos com as viragens violentas e detém-se mais na triagem dos momentos de sufoco pelos quais Helena passa a relembrar o que já foi e a esperar pelo que virá. É difícil não pensar no hoje esquecido “Copycat” (1995), com Sigourney Weaver, diante da dinâmica de um monstro em regresso. Só que o monstro aqui tem nuanças complexas, graças ao desempenho de Mendelsohn, capaz de transformar Holbrook num tipo assombroso e sedutor a um só tempo.




















