Clamando pela piedade dos deuses – pelo menos os de Asgard – depois de ter transformado a franquia “Thor” num arremedo do “Filme da Treta”, com efeitos especiais, o neozelandês Taika Waititi parece ter conseguido driblar (momentaneamente) a histeria e humor nada respeitoso ao recriar um episódio histórico do mundo desportivo com espartana assertividade: “Next Goal Wins”. Depois da sua estreia no Festival de Toronto (TIFF), a longa-metragem teve um espaço nobre no Brasil, na 47ª Mostra de São Paulo, com o título “Quem Fizer Ganha”. A avassaladora atuação de Michael Fassbender no papel de um técnico supostamente blasé, no epicentro de uma derrocada profissional, serve para humanizar uma narrativa que aposta nas cartilhas da dramédia a fim de fazer uma clássica releitura das tramas de redenção pelas vias do desporto, no caso, o futebol. Fassbender – visto nas no sublime “The Killer”, de David Fincher – expõe toda a sua versatilidade no papel de um líder nato alquebrado por uma desgraça pessoal, que só será conhecida nos minutos finais. Kaimana, que interpreta a jogadora trans Jaiyah, é uma centrifugadora sentimental que amplia a potência do protagonista.
Somos tomados por gargalhadas frouxas e momentos de angústia com a recriação da história real da equipa da Samoa Americana que perdeu um jogo por 31 x 0. Fassbender é Thomas Rongen, um treinador de pouca sorte que é convocado para repaginar essa seleção. Como Waititi tem intimidade com a matéria narrativa do mockumentary, a julgar pela curta-metragem “What We Do in the Shadows: Interviews with Some Vampires”, de 2005, correalizado pelo seu parceiro habitual (e conterrâneo de Nova Zelândia), o (ótimo) ator Jemaine Atea Mahana Clement. Desse pequeno grande filme nasceu a comédia “What We Do in the Shadows”, dona de um séquito de fãs desde a sua estreia, em 2014.
Vencedor do Oscar de melhor guião adaptado de 2020 por “Jojo Rabbit”, no qual um menino alemão era amigo de Hitler (vivido por ele mesmo, uma vez mais no reino da troça), Waititi havia concorrido às estatuetas douradas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood antes, em 2005, com a curta “Two Cars, One Night”, de 2003. O filme concorreu na festa da Academia de 2005, no mesmo ano em que ele fez “What We Do in the Shadows: Interviews with Some Vampires”, com Jemaine. Nela, ele cria uma estratégia supostamente documental para mostrar o que uma equipe de cineastas faz diante de três vampiros cuja verve aristocrática não parece mais compatível com um mundo interligado pela www, via internet. De novo, ele emplacou um sucesso, exibindo o filme na sua terra natal, no New Zealand International Film Festival, em julho de 2006. No ano seguinte, ele foi prestigiado pelo público do Festival de Sundance que aplaudiu a (hilária) comédia “Eagle vs Shark” (2007), também com Jemaine, e foi, com ele, filmar a série “Flight of the Conchords”.

Em 2010, ele volta a Sundance, e vai à Berlinale, com “Boy”, comédia agridoce sobre um menino fã de Michael Jackson. Depois, roda mais uma curta, “42 One Dream Rush”, e se entrega a séries, com “Super City” (2011) e “Zoados” (2012), enquanto prepara o roteiro de um longa baseado em “What We Do in the Shadows”, que lançou em Sundance.
“Next Goal Wins” tem pouca picardia e mais estudos sentimentais de humildade e de reinvenção. Parece um bocado com o “Cool Runnings” (“Jamaica Abaixo de Zero”), de John Turteltaub em 1993. A economia das “piádas sem piada” de Waititi salva o filme do tédio, deixando Fassbender livre para brilhar, sob uma fotografia corriqueira. Para quem destruiu o Martelo do Deus do Trovão, esta nova produção parece abençoada por Odin.


















