Inegavelmente publicitário, “Sound of Freedom” virou o fenómeno mais inusitado da bilheteria norte-americana nos tempos de “Barbenheimer” sem disfarçar a sua essência retórica e sua ambição catequizadora: é um “filme de propaganda”, interessado em vender não a fé católica, mas o princípio cristão da fraternidade. Poderia ser um “We Are The World” (o famoso clip dos anos 1980), cheio de boas intenções, mas atropelado por uma realização obtusa. Mas, não é, nem de longe. É um thriller empático com medula de melodrama que equilibra o melhor dos dois géneros com uma destreza invejável e, embora traga uma pesada homilia no guião, é bastante honesto com a plateia em assumir os seus dispositivos de publicidade. Ou seja, quem comprar ingressos para prestigiá-lo o fará ciente de que terá as emoções manipuladas e de que vai ouvir uma moral sobre a (oni)presença de Deus como guia da nossa potencial redenção. É tipo Terrence Malick, só que bem menos palavroso, com muita adrenalina, mais pé no chão, sem transcendentalismo. O Ónus da catequese está lá e é inevitável. O bónus: uma realização impecável do mexicano Alejandro Monteverde (premiado no Festival de Toronto por “Bella“, em 2006) e duas atuações devastadores. De um lado, a dos secundários, entra Bill Camp, no seu trabalho de maior solidez. Do outro, no protagonismo, temos um mesmerizante trabalho de Jim Caviezel, cuja história pessoal de calvário profissional se confundiu com a carreira deste belo filme e ajudou no seu marketing.

Caviezel foi Jesus em “The Passion Of The Christ” (2004), de Mel Gibson, que faturou 612 milhões de dólares, mesmo sob a acusação de ser antissemita. A associação de Caviezel a um catolicismo fervoroso e menos liberal condenou a sua então ascendente trajetória ao ostracismo, reduzindo o seu espaço à série “Person of Interest”. Agora, contudo, fala-se em Óscares quando o seu nome é citado. O motivo: depois de cinco anos engavetado, sob o desdém da Fox, “Sound of Freedom”, que custou apenas 14,5 milhões de dólares faturou 210 milhões, sem mal ter começado a sua excursão pelo mundo, fora dos EUA. Estreia no Brasil nesta quinta-feira com fome de salas lotadas. A forte adesão do povo brasileiro com a cristandade pode alavancar o resultado. Rodado há cinco anos, parte em solo colombiano e parte na Califórnia, o filme (que vai se chamar “Som da Liberdade” em português, numa tradução literal) tem Gibson entre os produtores. O facto de operar sobre um caso real, cercado de controvérsias, ampliou o seu status de polémico, colocando-o na mira das mais indóceis patrulhas ideológicas. Existem muitos clichês em cena, sobretudo no uso da banda-sonora. Mas cada clichê é usado na hora certa, com extrema precisão. Cirurgicamente, Monteverde passeia entre o folhetim e uma cartilha bem parecida com “Rambo II” (1985) sem deixar parecer que a sua narrativa seja um Frankenstein de géneros. O terço final ferve a tensão em temperaturas altíssimas. Visualmente, a fotografia usa o chiaroscuro de maneira didática, traduzindo o horror do seu assunto central: o tráfico de crianças para o mercado do sexo.
De caras, uma na abertura temos: “Baseado em fatos reais”. É uma suspensão de qualquer potencial descrença que a plateia venha a ter em relação à descida ao Inferno empreendida por Ballard, um especialista no combate à pedofilia. Um dos ataques que “Sound of Freedom” tem sofrido é a acusação de que nada ali é verossímil, diante dos feitos dignos dos heróis de Sylvester Stallone realizados por Ballard. Ele é o Rambo de Cristo em cena. Mas não existe um apelo tão forte da violência. Ela está lá, mas é setorizada, homeopática (bem dosada). O suspense é maior. É uma trama regida pela incerteza, que faz a audiência pactuar com o tom heroico de Ballard depois da aterrorizante sequência de apresentação, na qual uma menina e o irmão são raptados num esquema de aliciamento de menores.

Na trama, a crença de que “filhos de Deus não podem ser comprados” move Ballard depois de ele salvar um miúdo de uma rede de exploradores de menores nos EUA. Tal rede tem como base a Colômbia, e é para lá que ele parte a fim de salvar a irmã do rapazinho que resgatou. A princípio, tem o induto da Agência de Segurança Homeland Security Investigations (HSI), órgão do governo do Estados Unidos, o que dá uma incómoda sensação de legitimidade à sanha intervencionista dos americanos. No momento em que Ballard se embrenha nas entranhas da América Latina, de modo invasivo e bárbaro, o seu principal aliado para a ser um ex-transgressor outrora ligado a lavagens dos dólares do narcotráfico, Vampiro, personagem que pode render ao ator Bill Camp uma nomeação à estatueta na festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Caviezel e ele têm covalência plena na química cénica. Juntos, eles vão encarar uma célula guerrilheira na selva, de modo a defender infâncias ameaçadas por pedófilos. Mas esse combate segue uma estrutura menos truculenta e mais estratégica. Não é “Commando”, e, sim, um jogo de guerra, no qual a Colômbia vira um tabuleiro vivo.
Nesse jogo para salvar uma jovem das garras de uma quadrilha militarizada, Monteverde (que escreveu o filme com Rod Barr) joga de modo escancarado com a ideia de pecado, apostando numa caracterização caricata dos seus vilões. Mas Caviezel não é o herói clássico, infalível, no molde do cinema de ação dos anos 1980. Ballard é um pai antes de ser um vigilante. É uma figura falível, alquebrada pelo terror da vida real. O desempenho do ator nessa composição é um deslumbre.


















