Responsável por tornar os escritos de William Shakespeare potáveis para o cinema com o êxito de “Henry V” (Oscar de Melhor Guarda-Roupa em 1990), o irlandês Kenneth Charles Branagh deu ao mais imortal dos bardos a reciclagem audiovisual mais ambiciosa desde o “Romeu e Julieta” (1968) de Franco Zeffirelli (1923-2019). Só Baz Luhrmann foi capaz de superá-lo, ao filmar os amantes de Verona com Claire Danes e Leonardo DiCaprio em 1996 com timbre de videoclipe da MTV. Nesse mesmo ano, Brannagh deu ao circuito exibidor – no posto de ator e de realizador – um “Hamlet” de quatro horas encarado como a mais radical imersão de um cineasta naquela peça shakespeariana. Voltou ao poeta e dramaturgo inglês com “Love’s Labour’s Lost” (2000), “As You Like It” (2006) e “All Is True” (2018). No percurso pela direção, em paralelo a seu (inebriante) trabalho como intérprete, concorreu ao Urso de Ouro em 1992 com “Dead Again” (para alguns, o seu melhor filme); brincou na Marvel com “Thor”, em 2011; faturou 542 milhões de dólares com “Cinderella” (2015); e ganhou ao Oscar de Melhor Guião com “Belfast”, em 2022. Na sua condição de astro, fez parte da trupe de Christopher Nolan em “Dunkirk” (2017), “Tenet” (2020) e no recente fenómeno “Oppenheimer”; encarnou Laurence Olivier (1907-1989), em “My Week With Marilyn”, em 2011; e protagonizou o esquecido “The Gingerbread Man” (1998), de Robert Altman (1925-2006). Mas o caminho mais seguro entre as múltiplas façanhas desse artista é a franquia Hercule Poirot, baseada na prosa de dame Agatha Mary Clarissa Christie (1890-1976).

Rodado parcialmente no Pinewood Studios e na cidade que lhe dá título, o thriller “A Haunting in Venice” – lançado neste fim de semana em Portugal como “Mistério em Veneza” e no Brasil como “A Noite das Bruxas” – é uma produção estimada de 60 milhões de dólares que demarca uma terceira passagem de Branagh pelas páginas de Agatha. O romance de 1969, “Hallowe’en Party”, serve de inspiração (livre). Antes, com 55 milhões de dólares, filmou “Murder on the Orient Express” (2017), que arrecadou 352 milhões de dólares. Depois, fez “Death on the Nile” (2022), que consumiu 00 milhões, foi prejudicado na estreia pela pandemia e por polémicas com o ator Armie Hammer, e acabou rendendo 137 milhões de dólares quando muitos filmes americanos desapontavam nas bilheterias. Agora é a vez de um regresso mais sombrio aos suspenses da Rainha do Mistério. Uma vez mais, Kenneth volta a viver Poirot.

Estrela de 33 romances, duas peças (“Black Coffee” e “Alibi”) e 51 contos publicados entre 1920 e 1975, Poirot é um detetive belga que foi herói de guerra, trabalhou para a polícia e, já grisalho, passa a realizar sazonais investigações a pedido de camaradas ou à força do risco. Atores monumentais como Austin Trevor, John Moffatt, Albert Finney, Peter Ustinov, Ian Holm, Tony Randall, Alfred Molina, Orson Welles, David Suchet e John Malkovich o interpretaram. Mas foi Brannagh que lhe deu sua faceta mais pop – porém, a mais acomodada. Para um cineasta da sua ousadia, que já foi capaz de diálogos vertiginosos com Shakespeare (vide “Much Ado About Nothing”, indicado à Palma de Ouro de 1993), “A Haunting in Venice” é uma narrativa demasiadamente engessada, que pouco investe na psique da sua personagem central, calcando-se em demasia nas viragens do guião, saído da mente de Michael Green (nomeado ao Oscar por “Logan”).

Apesar de enquadramentos inusitados nas sequências de possíveis assombrações e de delírios de Poirot, a fotografia do habitual parceiro de Kenneth, Haris Zambarloukos, é pouco criativa, deixando passar a deixa de decalcar referência do expressionismo sugerido em diversos segmentos da sua direção de arte. O uso do chiaroscuro é burocrático, banalizado ao longo de uma edição que eletriza até certo ponto, perdendo-se num fluxo verborrágico de palavras no trecho final. Só o carisma de Branagh e a divertida participação do italiano Riccardo Scamarcio, como o ex-policia brutamontes Portfoglio, guarda-costas de Poirot, são verdadeiras mais valias.

Tina Fey é uma aquisição sábia para a franquia, destinada a se encostar no streaming em pouco tempo, a depender da receita desta tentativa de Branagh em aproximar o corpus de aventuras de Poirot do horror. Uma tentativa malfadada, que esbarra em efeitos visuais tímidos e rala participação da vidente encarnada pela oscarizada Michelle Yeoh. Na trama, Poirot é escolhido para investigar a mediunidade da personagem Sra. Reynolds, a pedido de uma amiga escritora, Ariadne Oliver (Tina). Há falas preciosas como “O terror torna a vida menos assustadora”. E há surpresas que asseguram diversão, eletrizando o enredo de Agatha, dando uma velocidade inatingível pela inércia. Mas há sequências onde o excesso de palavras empapa a fluidez do zigue-zague de acontecimentos esboçado pela montagem.

Falta um “To be or not be” a um Poirot que supõe ser a encarnação definitiva da mirada de Agatha feita pelo elo (vivo) mais forte entre Shakespeare e Hollywood. Uma personagem que se agiganta na literatura vira apenas uma figura heroica simpática nas transposições de Branagh. É muito barulho por pouco, ainda que esse pouco divirta.          

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Rodrigo Fonseca
a-haunting-in-venice-ser-ou-nao-ser-poirot Responsável por tornar os escritos de William Shakespeare potáveis para o cinema com o êxito de “Henry V” (Oscar de Melhor Guarda-Roupa em 1990), o irlandês Kenneth Charles Branagh deu ao mais imortal dos bardos a reciclagem audiovisual mais ambiciosa desde o “Romeu e...