Estreado em 2019, “Queen of Hearts” mostrava com toda a malignidade o envolvimento de Anna, uma advogada com duas filhas, que vai se envolver com o seu problemático enteado, Gustav, que foi viver com ela e com o companheiro. O papel principal estava entregue à dinamarquesa Trine Dyrholm, que era o epicentro de um furacão familiar e um jogo de manipulações com consequências derradeiramente trágicas. 

Quatro anos depois chega ao Festival de Cannes, na competição à Palma de Ouro, uma nova versão do filme, não executada pelos habituais suspeitos do costume, os norte-americanos, mas através da pátria do “cinema de autor”, a França. 

Afastada da 7ª arte  desde 2013, quando lançou “Abus de faiblesse“, Catherine Breillat pegou neste projeto do produtor franco-tunisino Said Ben Said e orienta o seu foco desta vez para o jovem ator Samuel Kircher, no papel do problemático Theo, cujo rosto e tronco é explorado com toda a atenção e delicadeza pela lente da cineasta, deixando Léa Drucker percorrer o ecrã com o naturalismo do desejo, mas sem a frieza e perversidade que se sentia na personagem que Dyrholm interpretou anteriormente. 

O resultado é um filme diferente do original, no tom e na história, vários furos abaixo em relação à carnalidade, o que espanta vindo de Breillat. Além disso, a atmosfera nunca é verdadeiramente eficaz no thriller que pretende ser, e a interpretação dos atores é esmagada pela falta de capacidade de Breillat em acertar no tom da interpretação de Kircher, uma espécie de Timothée Chalamet francês que anda perdido em demasiados sorrisos nervosos, ao ponto de limitar a química que tem no set com uma eficaz Léa Drucker.

O mais bizarro de tudo isto é que Breillat era conhecida por um jeito provocador e transgressivo, quer na literatura, quer no cinema. Apaixonada pelaos livros desde tenra idade, Breillat desembarcou em Paris acompanhada da sua irmã, a atriz Marie-Helene, em 1964 e, um ano depois, quando aos 17 anos, publicou o seu primeiro romance, “L’homme facile“, proibido para os menores de 18 anos. Lança mais três livros e, paralelamente, surge no cinema num pequeníssimo papel em “O Último Tango em Paris” de Bernardo Bertolucci. Em 1976, adapta a sua obra literária “Une vraie jeune fille“, iniciando assim uma carreira marcada sempre pelo erotismo e polémica, que teve em “Parfait amour!“o seu primeiro sucesso. Seguiu-se o controverso “Romance” (1999), no qual contou com a presença do ator de filmes pornográficos Rocco Siffredi. Depois de “Para a Minha Irmã” (2001), em 2004 ela repetiu a experiência de trabalho com Siffredi em “Anatomie de l’enfer“, que adaptava o seu livro “Pornocracia“. Nesse mesmo ano, foi vítima de um ataque cerebral que a deixou semiparalisada. Após 5 meses de hospitalização e uma lenta reabilitação, Catherine Breillat volta ao trabalho, lançando em 2007 “A Última Amante“, com Asia Argento no protagonismo.

Na maioria do seu cinema, a realizadora deu particular atenção ao prazer feminino, invocando uma responsabilidade sexual e expondo conflitos. Neste “L’été dernier”, nada disso acontece e Breillat mostra-se retraída, como que normalizando um tabu (e um crime), certamente, mas muito mais perto do cinema de Anne Fontaine (Adoration, 2013) do que daquele que nos habituou. Essa aproximação a Fontaine até nem seria mau, mas quando se tem “Queen of Hearts” nas mãos e se vai fazer um remake, é melhor apresentar algo realmente marcante. “L’été dernier” nunca o é.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/56qn
Pontuação Geral
Jorge Pereira
lete-dernier-a-rainha-de-copas-versao-breillatQuando se tem “Queen of Hearts” nas mãos e se vai fazer um remake, é melhor apresentar algo realmente marcante. "L'été dernier” nunca o é.