Um Herói: à conversa com Asghar Farhadi sobre dilemas morais e éticos

"Um Herói" chega aos cinemas nacionais a 3 de março

(Fotos: Divulgação)

Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes, ex aequo com “Compartment 6”, “Um Herói” é uma nova visita do iraniano Asghar Farhadi a diversos dilemas morais e éticos no Irão atual, tudo contado através da história de um condenado que, durante uma saída precária da cadeia, descobre uma mala cheia de moedas de ouro. 

Quando ele decide devolver a mala ao seu dono, é instantaneamente transformado num herói, despoletando a atenção da imprensa e das redes sociais. Essa fama instantânea traz também o seu negro passado de volta, já que regressa a cena o homem a quem o nosso “herói” pediu dinheiro emprestado no passado e a quem nunca pagou – o que o levaria a ser detido e encarcerado.

Aclamado por filmes como “Uma Separação”, “O Passado” e “O Vendedor”, Asghar Farhadi sentou-se com o C7nema em Cannes para nos falar das origens deste seu “Um Herói”, o seu acordo com a Amazon e a sua relação com os media e redes sociais. Uma conversa para seguir abaixo.

Nos filmes de Hollywood, quando um enorme saco com ouro está envolvido, normalmente as coisas acabam com um amontoado de cadáveres na corrida a ele. Foi nesse saco com o ouro que a ideia para o filme começou ou no tema das redes sociais e os Media?

(risos) O verdadeiro rastilho para o filme são estas histórias verídicas de pessoas que encontram algo muito valioso e devolvem. Ou não devolvem e mentem. Há muitas histórias assim e até no Youtube encontramos coisas dessas no Irão, de pessoas que devolvem os pertences de alguém. É considerado algo muito especial, uma boa ação que enche as notícias e toda a gente fala disso.

Esse fenómeno era muito interessante de abordar, a boa ação que se torna notícia e depois viral por culpa das redes sociais. As redes sociais surgiram na história como um segundo ponto de interesse. Olhando retrospectivamente, as redes sociais são a nossa realidade, como vivemos hoje em dia. O foco era assim uma ação que se torna viral pela realidade das redes sociais hoje em dia. 

Asghar Farhadi

Qual o papel dos media e particularmente da televisão na avaliação das bases morais da sociedade iraniana?

As redes sociais estão muito ativas no Irão, como em todo o mundo, e são essenciais na forma como comunicamos. Quanto à imprensa local, eles lidam com a vida quotidiana das pessoas e assumem o papel de agente que encoraja o público a fazer boas ações. Eles tentam aumentar a moralidade nas comunidades. 

Mas o que podemos fazer para contrariar esta necessidade de criação de heróis que os media impõem?

Depois de um evento assim, espera-se que estas pessoas sejam heróis em todos os aspetos da sua vida e a todo o momento [o que não acontece com o nosso protagonista]. É por isso que surge a queda logo após a ascensão meteórica à condição de herói. Essa situação traz muito sofrimento a estas pessoas.

Investiguei com alguns alunos de um workshop histórias assim. As pessoas que passaram por essa ascensão e queda mostravam-se muito desapontadas e até deprimidas. Inicialmente foi-lhes dado inesperadamente um estatuto de heróis, mas rapidamente tiraram-lhes esse título, pois nem todos os aspectos da sua vida eram heróicos. Esta experiência foi muito violenta para eles. A ideia neste ‘Um Herói‘ era mostrar que na verdade não existem heróis e não devemos esperar que as pessoas sejam perfeitas em todos os aspetos das suas vidas, isto depois de serem amadas e consagradas por uma atitude isolada que tiveram no seu dia a dia.

O seu protagonista é de alguma forma uma metáfora da sociedade dos dias de hoje? Se o é, a sua visão sobre a sociedade é muito pessimista…

Não uso metáforas nos meus filmes. Um dos pontos deste projeto é que cada um de nós é um indivíduo. Quanto à personagem em si, não a vejo como uma má pessoa. Vejo este homem como alguém racional, no seu pleno direito, alguém que diz o que sente e o que merece. Tento mostrar que ambos os lados da questão estão corretos. Mesmo assim, ambos os lados não conseguem chegar a um acordo comum. 

Além de não usar metáforas nos seus textos, que outros truques ou métodos aplica quando escreve um guião?

Não há nenhum truque, a não ser um olhar muito próximo sobre as nossas vidas. Nós passamos pela vida a tal velocidade que não temos capacidade de ver todas as camadas de um evento pelo qual passamos. Acima de tudo, observo as coisas com grande proximidade.

Vou dar um exemplo. Visitei os EUA e estava a falar com um estudante. Ele contou-me a história do irmão, que estava a passar um mau bocado, com uma desordem do foro psicológico. Perguntei o que tinha acontecido e ele explicou-me: uma vez esse rapaz estava em casa com muita pressa para sair. Mesmo antes de sair, o pai pediu-lhe um copo de água. Ele disse que estava atrasado e disse ao pai que não podia. Quando voltou a casa, o pai estava morto. Agora, ele vive obcecado com o pedido do copo de água que negou ao pai. Estamos a falar de um evento completamente aleatório e banal da vida, mas que ganhou todo um novo significado.  

Um Herói

Voltando às redes sociais, qual a sua relação com elas. É um seguidor atento?

Sim, sigo-as, mas para uso pessoal só utilizo algumas. Por exemplo, não uso Twitter. Acho-o demasiado confuso e caótico. Mas estou no Instagram e acho coisas interessantes, como seguir certos fotógrafos. Este acesso a imagens fascinou-me. E embora sejamos assoberbados por tantas imagens nos dias que correm, ainda estou nessa rede social.

Quanto ao consumo de notícias, tenho um hábito antigo de ler vários jornais quando vou para o meu escritório. Além disso, acompanho as notícias na Internet, nomeadamente sites iranianos e internacionais .

Há dois aspetos nestas redes sociais que acho particularmente danosos. Primeiro, o acesso das crianças a elas. Sinto que a infância é roubada às crianças quando entram nas redes sociais. Rapidamente acedem e têm de se adaptar a conteúdo muito violento, algo que só deveriam ter acesso mais tarde. Depois, temos o problema dos algoritmos tomarem decisões por mim. Imagine, eu digo algo e a partir daí uma entidade começa a dizer onde devo ir, o que devo ler, o que ver. Para mim isso é tremendamente violento. (…) Mas um dos pontos positivos das redes sociais é que o trabalho de caridade melhorou. No Irão, as NGOs podem recolher dinheiro mais facilmente e ajudar as pessoas.

E quando alguém é apanhado no meio de uma tempestade nas redes sociais, acha que é possível lutar ou é melhor render-se e afastar-se?

A minha experiência diz que não consegues lutar. Podes e deves afastar-te…

Mas no caso destes “heróis”, acha que são eles que manipulam as redes sociais, ou são estas que exploram a sua história?

As redes sociais não trabalham por elas mesmas, ou seja, há seres humanos nelas, mas existe um desenho, uma forma de manipulação muito precisa. O aspeto mais importante de todos é que nos dão a ilusão de liberdade, daquilo que devemos ler, onde ir, o que ver, mas na verdade és manipulado, induzido a seguir determinadas coisas. O truque das redes sociais está aí. 

Há alguns anos, aquando da sua passagem pelo FEST em Espinho, disse que tinha consciência que o streaming estava a matar e a mudar a nossa forma de ver o cinema. Agora, o seu filme tem o selo da “Amazon”. Gostava de ter um comentário seu sobre essa nova realidade… 

Continuo a achar que esta relação entre as plataformas de streaming e os cinemas devia ser regulada e devíamos dar muita atenção a isso, mas ao mesmo tempo temos de ver que o streaming oferece à economia a possibilidade de as famílias descobrirem filmes em conjunto. Para mim, a experiência do streaming não tem a mesma força de uma descoberta num cinema. Em França existe a resistência das salas de cinemas, mas noutros países já começamos a observar o encerramento de salas devido ao poder aglomerador das audiências das novas plataformas. Devemos ser muito cuidadosos quanto a isto e exigir um maior balanço entre as duas formas. 

Quanto ao meu filme, sou o realizador e há decisões que vão além de mim. Mas fui muito claro na exposição dos meus desejos. A minha condição para esse acordo era que o filme não fosse exibido primeiro em streaming. Isso era o que estava sob o meu controle e foi isso que acordamos. A Amazon aceitou as minhas condições.

Neste caso, o acordo com a Amazon foi bom para si?

Sim, eles aceitaram as minhas condições.

Últimas