A história é conhecida e mal a notícia da tragédia se transformou em entretenimento global, capaz de ocupar largas faixas dos telejornais globais, sabíamos que iam nascer um filme (ou mais). E sabíamos porque, anos antes, aquando um grupo de mineiros resgatados no início de outubro de 2010 das profundidades de uma mina no norte do Chile, essa “história de sobrevivência” imediatamente chegou ao cinema em várias versões. Não houve assim qualquer surpresa que o caso do grupo de crianças e o seu treinador de futebol que ficaram retidos numa gruta tailandesa iria chegar ao pequeno e grande ecrã, afinal estão lá todos os ingredientes que Hollywood aprecia e que eles tentam muitas vezes explanar nas salas através de filmes-catástrofe ou docudramas. Um desastre, um salvamento “impossível” e uma conclusão que agrada a todos, não diferente de “Apollo 13“, que Ron Howard também assinou. Com o “selo” de baseado numa história verídica, tal como o filme de salvamento espacial, “Thirteen Lives” parecia um projeto destinado ao sucesso. Só que não…
Chegados ao filme, assinado por um cineasta que nos seus tempos áureos fez trabalhos como “Mar de Chamas” ou “Edtv“, difícil é categorizá-lo além de um exercício exemplar de reconstituição cronológica, com o ponto de vista dos salvadores e de quem estava fora da gruta sempre em destaque. Tão inteligente e calculista, como estranhamente frio e seco, “Thirteen Lives“, da Prime Video, é um relato direto da missão de resgate que estranhamente falha na tensão, inerentemente necessária para um filme que se quer de aventuras com um pano de fundo dramático. E talvez seja pelo evento ter sido há pouco tempo, e ainda nos lembrarmos do desenlace, mas este objeto de Howard nunca consegue escapar a uma previsibilidade e sucessão de eventos entediante, onde a escassa construção das personagens nunca consegue criar qualquer ponte de empatia entre elas e o espectador. Ora, quando isso acontece e se tem no elenco nomes como Viggo Mortensen, Colin Farrell e Joel Edgerton, além de uma dúzia de miúdos prestes a sucumbir, algo está errado. A verdade é que é como se todo o tipo de emoções do filme, numa tentativa hercúlea de escapar à exploração, manipulação e a típica narrativa do “salvador branco“, conduzisse a um secar completo de absolutamente tudo, ficando apenas uma competente narrativa robótica dos factos.
Howard falha assim com toda a competência técnica e factual do seu lado, nunca conseguindo demonstrar emocionalmente o que era essencial: a capacidade da humanidade em se unir para uma crise imediata, enfatizando o esforço coletivo. Por isso mesmo, e ao contrário do documentário “The Rescue” (2021), “Thirteen Lives” é demasiada cabeça e zero coração, nunca nos agarrando como Cinema, embora seja um produto audiovisual de reconstituição histórica exemplar.




















