Nota: mais do que uma crítica, pretendo fazer uma análise a este filme e ao meu descontentamento com ele, assim, poder-se-ão esperar spoilers em todo o texto.
Depois de dois visionamentos, separados por mais de três semanas, para tentar perceber porque não consigo ver a grandeza proclamada por alguns críticos nem a razão pela qual foi nomeado, vou tentar explicar as razões pelas quais acho este filme (e o seu realizador) uma desilusão.
“Black Swan” é a quinta longa-metragem de Darren Aronofsky, realizador de créditos dúbios, cujos filmes são um emaranhado de clichés e estereótipos, mascarados por uma visão estética muito marcada e por um pretensiosismo que se tornou verdadeiramente insuportável no seu terceiro filme “The Fountain” (O Último Capítulo). Neste filme pode ver-se a ascensão de Nina Sayers, bailarina de um corpo de ballet, e a relação doentia com a sua mãe, culminando na sua apoteose artística e degradação mental.
Como todos os filmes de Aronofsky, é muito marcado pelas escolhas estéticas e pelo uso de todos os clichés relacionados com ballet e com relações freudianas. É um filme de superfícies luzidias e construído sobre fantasmas da cultura popular, sem nunca desenvolver qualquer conteúdo ou explorar personagens com profundidade.
O contexto do ballet é aleatório, podendo ter sido utilizado qualquer outra arte performativa. Depois do filme, já várias entrevistas apareceram de bailarinas que referiram o captar da realidade do quotidiano como fiel, mas este não é aproveitado de uma forma que o glorifique. Basta comparar com o documentário também do ano passado de Frederick Wiseman “La Danse”, para perceber que a forma como este é filmado torna incompreensível qualquer coreografia ou passo de dança. Poder-se-ia argumentar que a escolha do ballet é para poder fazer um paralelismo entre “O Lago dos Cisnes” e a realidade de Nina, dividida entre o cisne branco e o cisne negro que dá nome ao filme, mas esse paralelismo falha para além desse ponto, já que, para isso, Nina teria de saborear a ribalta e perdê-la para a sua rival Lily, interpretado por Mila Kunis. Também se pode referir que, só mantendo esse paralelismo, se justifica a morte de Nina no final. Pode tentar argumentar-se pelo último sacrifício do artista, dando a sua vida pela Arte que tanto lhe diz, mas aí toda a história da relação com a mãe se torna acessória e excessiva, transformando esse sacrifício num sacrifício por razões pessoais (por muito dementes que possam ser), não pela Arte. Para além de que o tema já foi explorado com maior mestria noutros filmes, como por exemplo o “Esther Kahn” de Arnaud Desplechin.
Podemos então procurar o mérito do filme vendo-o como um filme de terror, explorando os recônditos da mente humana e do corpo, mas também aí o filme falha: o terror físico, que David Cronenberg já explorou com resultados francamente agoniantes e perturbadores, é aqui um artifício, uma série de acontecimentos falsos, onde somos sujeitos ao transtorno da situação, mas nunca das consequências, tudo reduzido a um factor mental. Aliás, a coerência interna do filme falha especialmente aqui, onde uma série de falsos positivos é trocada no final por um positivo falso, uma ferida mortal que sangra quando quer, assumindo os momentos de perturbação mental um realismo superior ao único que tem uma consequência que interessa ao realizador, como um mau truque de magia. Negando, então, a dimensão física do que acontece, podemos dizer que se trata de um filme sobre obsessão. Mais uma vez tudo falha, com a hesitação do realizador entre o querer mostrar o (falso) terror físico, a relação edipiana, o ambiente de competição e a identificação com os cisnes branco e negro. A obsessão perde-se em todas estas facetas, sem nunca assumir uma: as maleitas físicas são, como vimos, mentais, a mãe e o encenador não assumem nunca o estatuto de personagens, limitando-se a caricaturas do que pretendem simbolizar e o paralelismo dos cisnes não é completo. Para um explorar sobre obsessão, há que recorrer a Roman Polanski e a filmes como “Repulsa”, onde a dimensão desta ocupa o passar do tempo e a tela de uma forma da qual não se pode escapar.
Podemos então voltar-nos para a relação com a mãe, os sonhos que este teve e prescindiu, projectando-os para a filha ao mesmo tempo que a sufoca com medos e cuidados excessivos. É aqui que o maniqueísmo do paralelismo parcial com os cisnes assume uma leitura compreensível, como a sexualidade interrompida pelos cuidados da mãe, a personagem de Nina mantida como uma criança, como se pode ver no seu quarto, cheio de peluches e brinquedos, por oposição a uma vida adulta sexual plena, vista como ameaçadora. Mas aqui torna-se preocupante o final. Se compararmos este com outro filme também sobre relações de controlo maternal estreado o ano passado, “Tangled” (Entrelaçados), o filme da Disney, podemos ver que são paralelos: a vontade de querer fugir ao jugo da mãe, contrariados pelos sentimentos de culpa e preocupação de a magoar (explorados de forma humorística neste segundo filme) e o crescimento e emancipação das personagens principais, Nina pelo explorar de uma sexualidade representada pelo cisne negro e Rapunzel pelo responsabilizar-se pelas suas escolhas. Os dois filmes assumem leituras psicanalíticas edipianas, de oposição a uma mãe percebida como um obstáculo e o ultrapassar dessa percepção, mas têm finais opostos: se em “Tangled” Rapunzel consegue assumir uma identidade sua e ser aceite no seio da sua família, em “Cisne Negro” Nina não o consegue fazer. Porquê? Ao não o fazer, todo o filme assume uma dimensão moralista e misógina incompreensível, já que, como vimos antes, não conseguimos explicar a morte de Nina de outra forma. Aronofsky mostra aqui a sua verdadeira face e, com ele, a de Hollywood e muito do público: porque Nina se consegue emancipar, tem de morrer. É esta a alternativa? Será que a Disney é neste momento mais progressiva do que os ditos filmes de temas “adultos”? Se este é um dos filmes nomeados para melhor filme produzido em 2010, o que diz isto da nossa sociedade?
João Miranda

