Contam-se pelos dedos as comédias românticas com protagonistas já em tempo de maturidade, como se viu em Last Chance Harvey (Dustin Hoffman e Emma Thompson), It’s Complicated (Meryl Streep e Alec Baldwin), Elsa & Fred (Shirley MacLaine e Christopher Plummer no remake; China Zorrilla e Manuel Alexandre no original), All I Wish (Sharon Stone e Tony Goldwyn) e El Amor Menos Pensado (Mercedes Morán e Ricardo Darín). Por ser uma aposta rara, num género de enorme sucesso ao longo de décadas — mas hoje algo esvaziado, diante da vigilância moral sobre o humor —, a escolha de Kyra Sedgwick (hoje com 60 anos) e Kevin Bacon (com 67) para protagonizarem The Best You Can chama a atenção não apenas por contrariar a recorrente preferência por estrelas jovens, mas por juntar, em cena, um casal unido desde 1988. A estrela das produções de “cinema pipoca” dos anos 1980, famoso por Footloose (1984) e Tremors (1990), conheceu a estrela da série The Closer durante a filmagem de uma versão televisiva da peça Lemon Sky, para o canal PBS. Contracenaram depois no drama The Woodsman (2004), de Nicole Kassell, considerado o melhor trabalho do ator. Ainda que ambos circulem mais pela televisão, reúnem-se de novo, no grande ecrã, para uma longa-metragem que encontrou no Festival de Tribeca o seu trampolim para a projeção, rodada sob a realização de Michael J. Weithorn. Prolífico argumentista e produtor, ele estreou-se na realização com A Little Help, em 2010, mas tem-se dedicado mais às narrativas serializadas.

Badalado no circuito festivaleiro pela ligação pessoal das suas estrelas, The Best You Can foi “A” atração popular de Tribeca em 2025 e volta a cercar o evento, na sua edição de 25 anos, ao ganhar circulação no streaming, pela Prime Video da Amazon. No Brasil, saiu com o título O Melhor de Nós Dois e atrai assinantes com a sua reflexão madura sobre solidão, parcerias das mais longevas, envelhecimento, amor intergeracional e atenção aos detalhes do afeto. Weithorn trata cada uma das suas personagens principais segundo a dinâmica dramatúrgica chamada “1–1” (ou biprotagonismo), na qual o que se passa com um passa-se com o outro, de modo a esmiuçar cada elemento nos seus universos singulares. Nesse esmiuçamento, o realizador prefere olhar para as figuras vividas por Kyra e Bacon sob as marcas da experiência acumulada, dos desejos interrompidos e das feridas que o tempo não apaga totalmente, em especial nas frustrações a dois e nas escolhas familiares.

O Cupido lança a sua flecha discretamente no momento em que o ex-polícia Stan Olszewski (Bacon), hoje vigilante de segurança de vida errante, impede uma invasão à casa de Cynthia Rand (Kyra Sedgwick), uma urologista nova-iorquina cuja estabilidade emocional começa a vacilar perante os desafios familiares que enfrenta. Como ele revela uma necessidade constante de urinar, por força de um problema na próstata, ela aceita atendê-lo. Aos poucos, esse atendimento ganha outro vulto e avança através de mensagens trocadas durante a noite, criando uma intimidade gradual que desafia classificações fáceis. Não se trata exatamente de um enamoramento convencional, mas antes de uma exploração delicada da cumplicidade entre duas pessoas de meia-idade. Ela é casada com um advogado e aspirante a escritor já octogenário, Warren (Judd Hirsch, sempre sublime em cena), e ele paquera, sem grande empenho, a balconista de vinte e poucos anos CJ (Olivia Luccardi). Próximos, Cynthia e Stan completam-se e atraem-se como uma febre mansa.

Íntimos na vida, Kyra e Bacon levam essa intimidade para a cena, embora Weithorn tenha procurado evitar que essa cumplicidade natural dominasse demasiado cedo a narrativa. Durante a preparação da rodagem, pediu ao casal de atores que ensaiasse em separado, tentando preservar no ecrã a sensação de descoberta progressiva entre as personagens. O processo resulta, pois o que se vê é um desfolhar gradual de um outono que caminha para a primavera depois de uma fase invernal de faniquitos e cobranças de quem se quer em excesso. Falta um pouco de ambição a Weithorn para entregar uma fotografia mais feroz, travada pela luz apolínea em demasia de Andrew Wonder. Já a montagem de Tricia Holmes assegura a velocidade ideal aos solavancos daquela relação, que nos arranca suspiros pela força da química entre Kyra e um Bacon em estado de inspiração. A sua relação com a filha cantora Sammi (Brittany O’Gradi), com quem teve um histórico de falhas, é comovente e foge à banalidade dos filmes sobre perdão. Ninguém aqui tem de perdoar ninguém; há mais é que seguir em frente… e celebrar.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
the-best-you-can-e-apaixonar-se-por-uma-comedia-romantica-fresca-com-o-casal-sedgwick-baconUma reflexão madura sobre solidão, parcerias das mais longevas, envelhecimento, amor intergeracional e atenção aos detalhes do afeto.