Com cinco filmes realizados em seis anos, incluindo a trilogia Only the Winds, Octopus e Thiiird, onde se centrava no Líbano como um território em permanente estado de colapso, Karim Kassem tem vindo a construir uma obra prolífica, à qual podemos acrescentar ainda Moondove, que se aproxima muito diretamente de Pipes, já que pega em Hassan, uma personagem secundária dessa obra, e o coloca agora no centro da narrativa.

Em Moondove, de 2024, o cineasta levava-nos a uma aldeia de montanha no Líbano, ameaçada pela seca e pela possibilidade de abandono. Enquanto a comunidade preparava a sua peça anual, intitulada Partidas, três histórias cruzavam-se em torno da memória, da perda e da possibilidade de partir, temas que regressam agora em Pipes, onde Kassem aprofunda o seu estudo sobre o local e a comunidade, mas concentrando tudo num antigo trabalhador das águas que tenta ajudar os habitantes durante uma crise hídrica e acaba envolvido num mistério e num processo de luto.

Nascido por insistência “popular”, de fãs do primeiro filme que queriam conhecer melhor a personagem de Hassan, o realizador partiu para uma nova empreitada que teve a sua estreia mundial em Karlovy Vary e deu a Ghassan Saad a distinção de Melhor Ator. Um prémio justo, já que o ator, sempre em diálogo com outros habitantes do local, faz um retrato do Líbano e da sua geração com a objetiva apontada para o microcosmos onde habita e para o seu estado interior.

Pipes parte assim do pessoal para falar de algo maior, neste caso o país, mas desta vez coloca grande parte do peso do seu interesse em Hassan, um homem complexo, muito desconfiado — de que lhe risquem o carro, das estradas bloqueadas — e que vive num estado de suspensão do tempo. A descoberta da morte de um amigo, migrante do Bangladesh, que aparentemente morreu envenenado por gás devido a uma fuga numa canalização, desperta nele algum sentido de investigação e de ação, mas será apenas após a pressão de um amigo que decide dar o passo seguinte.

Ao longo de todos os desenvolvimentos do filme, Karim Kassem mostra-se sempre menos interessado na progressão clássica do mistério da morte do que na textura do lugar e no estado emocional de Hassan, preferindo assim acompanhar com insistência a cadência do quotidiano, centrando-se nos rostos, nos gestos e na sua interação mundana, enquanto o seu retrato do local, de casas decrépitas, tubagens que ninguém encontra e poeira e aridez abundantes, evoca a ideia de uma comunidade a funcionar nos limites. Nesse sentido, o próprio carro de Hassan, uma verdadeira lata velha com rodas, é o espelho da desolação e da suspensão do tempo naquelas paragens, e da personagem, que embora já descascada de aparentes emoções à flor da pele, ainda vai ter mais uma tarefa pela frente.

Num dos momentos mais curiosos do filme, uma das pessoas que promete ajudar Hassan a fazer um vídeo para enviar à mãe do falecido mostra-lhe primeiro um pequeno anúncio publicitário que fez para a sua empresa. Ao som de The Final Countdown, dos Europe, e de uma animação que mistura 8-bit com imagem real, o espectador percebe como tudo por ali parece perdido no tempo, como se essa cena funcionasse como resquício de uma civilização prestes a ser apagada do mapa.

Essa pequena cena, com tudo o que tem de hilariante, é explícita nas intenções do realizador, que derradeiramente coloca as suas duas personagens principais, Hassan incluído, numa road trip até Beirute, com o corpo do falecido na bagagem.

Transformando essa deslocação física numa espécie de viagem pelas ruínas emocionais e materiais do país, a direção de fotografia capta ao máximo o real e mantém sempre um registo observacional próximo do documentário, sobrevivendo o filme dos pequenos gestos e diálogos que cria, em particular no final, quando uma outra trabalhadora do Bangladesh lê uma carta na sua língua nativa, deixada pelo falecido.

Com menor interesse no que aconteceu efetivamente ao falecido, Pipes vê o seu potencial de tensão esvaziado, preferindo o realizador evocar aquilo que a morte despertou em Hassan. Nesse sentido, este acaba por ser um filme que vai gerar mais frustração a quem o acompanha do que ternura diante de um homem preso entre a rotina, a desconfiança e uma forma tardia de responsabilidade.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/br91
Pontuação Geral
Jorge Pereira
pipes-um-canalizador-uma-aldeia-e-um-pais-a-espera-de-reparacaoCom menor interesse no que aconteceu efetivamente ao falecido, Pipes vê o seu potencial de tensão esvaziado, preferindo o realizador evocar aquilo que a morte despertou em Hassan.