Listen fora dos Oscars: quando se tenta contornar a matemática (opinião)

(Fotos: Divulgação)

Com uma regra explícita de elegibilidade, que consagra que num filme submetido à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS) para a corrida ao Oscar de Melhor Filme Internacional a gravação da faixa de diálogo original, bem como a imagem completa deve ser predominantemente (mais de 50%) num idioma ou idiomas diferentes do inglês“, era óbvio que “Listen” nunca poderia ter sido selecionado como o candidato português. Ainda assim, numa estratégia de mandar o barro à parede para ver se colava, a Academia Portuguesa de Cinema esqueceu-se que a matemática (há um número metido ao barulho: 50%) não é um conceito ajustável numa instituição que está sob o olhar atento do mundo – e que ainda no ano passado chumbou o candidato austríaco e nigeriano da mesma forma que rejeitou este ano “Listen”.

Era algo tão óbvio, que a Academia Portuguesa não se pode desculpar com o “esteve em permanente contacto com a instituição”. Eu mesmo falei, de forma abstrata (sem citar nomes), à margem de entrevistas sobre as suas carreiras, com membros da AMPAS, que me disseram que as regras da instituição são seguidas à lupa e as exceções, estes contornos à matemática, são analisadas em dossiers preparados sobre a matéria, mas naturalmente chumbados quando violam os números impostos e escarrapachados: 50%.

Resta agora saber quem será o candidato português aos Oscars. “Listen”, não fosse o facto de ser maioritariamente em inglês, era uma boa opção, não pelas vitórias em Veneza, nem pela qualidade (que tem), mas porque sabemos que o que interessa fundamentalmente nesta questão do Oscar de Melhor Filme Internacional é a necessidade de uma boa distribuição local, capaz de promover o filme ao máximo para estes prémios minados de lóbis.

Listen” tinha a força da Magnolia Pictures, tal como Pedro Costa e o seu “Vitalina Varela” têm a força de uma Grasshopper Film e da poderosa – no mundo do cinema de autor – The Criterion Collection. Resta saber a força no mercado dos EUA e a eventual divulgação que um “Mosquito“e “Patrick“ têm para esse combate. Qualidade sabemos que têm, mas isso é secundário nesta guerra.

Talvez fosse importante a Academia Portuguesa de Cinema adaptar o modelo francês, que após uma primeira pré-seleção ouve atentamente os distribuidores dos filmes gauleses nos EUA e os seus planos de divulgação e marketing para levar essas obras à indicação dos cobiçados prémios.

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