Revisitando Truffaut: a história do menino selvagem

“O Menino Selvagem” (“L’Enfant Sauvage”) tem sessão no IndieLisboa dia 6 de setembro

(Fotos: Divulgação)

Relatos de crianças a crescer sozinhas na selva e entregues à própria sorte têm um longo histórico de fascínio – inspirando desde narrativas populares como a de Rudyard Kipling (criador de Mowgli) até abordagens mais autorais, como a de Werner Herzog (“O Enigma de Kaspar Hauser”). Pelo meio, um sem-número de histórias mais ou menos fantasiosas percorrem os séculos.

Interessado nos aspetos pedagógicos de uma das poucas destas efemérides cientificamente documentadas, François Truffaut lançou em 1970 esse filme baseado nas anotações de Jean Marc Gaspard Itard – que surgiram compiladas em 1964 num livro de Lucien Malsen. Nela acompanha-se um médico no início do século XIX a tentar educar uma destas crianças depois de obter a sua guarda e batizá-la de Victor.

Com base nas anotações de Itard, Truffaut concebeu um filme pouco interessado em aventuras ou fantasias, caracterizando-se mais como um relato seco e naturalista onde o drama reside mais nas angústias do cientista, que atua num daqueles arroubos de autoconfiança típicos das crenças civilizatórias do século XIX. Depois de capturado não sem dificuldade numa zona rural, o menino é entregue à uma instituição de surdos-mudos antes de Itard obter do Estado a autorização para educá-lo na sua própria casa, onde contará apenas com a ajuda da governanta (interpretada por Françoise Seigner, tia de Emmanuelle Seigner).

A adaptação dos escritos de Itard encontram eco numa figura bem mais próxima do cineasta, a de Ferdinand Deligne ele próprio um radical pedagogo que não cabia em instituição alguma do Estado francês até ter sido financiado para gerir, na zona rural, um estabelecimento para surdos-mudos e deficientes. Apesar da amizade entre ambos e de Deligne e o seu trabalho com crianças ter servido de inspiração, este último não deixou de criticar o projeto do Truffaut – que apresentava um dos seus raros registos onde a atenção não ia para a criança, mas para o educador (não por acaso, interpretado pelo próprio). Para o pedagogo, quando se tratavam de crianças assim cabia ao adulto tentar entender a linguagem particular deste universo ao invés de tentar impor o seu próprio.

O Menino Selvagem” foi um projeto singular dentro do ambiente de contracultura, algo que não escapa a Truffaut, que questionava se a história de um menino crescido num ambiente selvagem era submetido ao processo civilizatório. Com o desejo de realizá-lo desde 1965, só obteve financiamento, depois de quatro anos, quando “Beijos Roubados” foi um grande sucesso e o cineasta tinha já alinhado “A Sereia do Mississipi”, obra comercialmente promissora ao contar com Catherine Deneuve e Jean-Paul Belmondo. Dúvidas do realizador e da United Artist, que financiou o filme, foram ultrapassadas por um grande sucesso de público.

Deligny, nada alheio às potencialidades do cinema, procurou ele próprio o seu caminho na sétima arte, lançando em 1971 “Le Moindre Geste”, correalizado com Jean-Pierre Daniele e Josée Manenti. Com muito esforço de Chris Marker para que o filme tivesse, efetivamente, um lançamento, a obra chegou à Semana da Crítica em 1971, mas o pedagogo não compareceu à sessão: andava ocupado com o outro menino que chegava à sua “escola”.

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