Gays e lésbicas – o eterno duplo padrão

(Fotos: Divulgação)

Numa altura em que filmes como “Milk” ganham Oscars e tempo de antena para os direitos de homossexuais, e visibilidade maior destes tanto na indústria como na sociedade em que se inserem, eis que a realidade nos mostra que não avançámos assim tanto…

O The Sunday Times reportou há dias que “I Love You Philip Morris”, filme protagonizado por Jim Carrey e Ewan McGregor, que obteve inclusivé boas críticas aquando da sua passagem no recente Festival de Sundance, não encontrou ainda distribuidora no mercado norte-americano. O motivo: a película é considerada muito “arriscada” por conter nomeadamente uma cena de sexo mais explícita entre dois homens, assim como múltiplas referências a sexo “gay”.

Ao mesmo tempo, chega-nos a notícia de “Lesbian Vampire Killers” de Phil Claydon já ter sido vendido facilmente a um sem número de territórios influentes, como a França, o Brasil, a Escandinávia, Alemanha e Austrália, só para citar alguns. Um filme com vampiras lésbicas, algo que nunca tinha passado pela cabeça de alguém (a não ser no cinema porno), nem nas maiores fantasias sexuais de alguns.

A verdade é que continua a persistir uma dualidade gritante e irritante entre géneros e orientações sexuais. Chamem-lhe homofobia, heterossexismo ou machismo puro. O puro preconceito de que um filme encabeçado por dois amantes masculinos dá menos lucro do que um filme com uma cena de sexo entre duas mulheres persiste e ameaça não ser largado facilmente.

Em 2005, “Brokeback Mountain”, o drama de Ang Lee sobre dois cowboys que se apaixonam, facturou mais de 178 milhões de dólares mundialmente, com um orçamento de apenas 14 milhões. Podia não ter uma cena de sexo mais explícita, mas parecia indicar sinais de mudança.

O cinema orientado a homossexuais (falo aqui sobretudo dos homossexuais masculinos) ganhou notoriedade nesse ano, e nos anos que seguiram, com um sem número de filmes independentes, filmes não tão independentes e séries de televisão a usarem mais personagens “gay”, nem que fosse como meras secundárias. O estereótipo base podia continuar inquebrável mas a noção de que caminhávamos para uma nova era liberal é quebrada com notícias como esta.

Quanto ao uso de lésbicas, ou melhor, mulheres-que-acariciam-outras-mulheres-mas-sempre-com-um-homem-por-perto, este tem sido muitas vezes introduzido facilmente a partir do cinema “teen”, orientado a adolescentes com as hormonas aos saltos, para os quais o conceito de ver duas mulheres a beijarem-se dá uma outra excitação.

Afinal, ser lésbica pode ser mais aceite do que ser gay, na óptica de muito produtor ou distribuidor. Fantasia de heterossexuais masculinos (não haverá também heterossexuais femininas a gostarem de ver sexo entre dois homens?), que talvez esconda a ainda persistente desigualdade entre o género masculino e o género feminino, a qual já deveria ter sido erradicada no século passado. Alguns hábitos teimam em não ser quebrados, simplesmente.

Dito isto, independentemente da qualidade que o filme possa ter, os meus votos para que “I Love You Philip Morris” encontre distribuidora rapidamente, para o bem do cinema para todos os públicos.

André Gonçalves

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