Passado em Taiwan em 1988, Nühai acompanha Hsiao-lee, uma jovem que encontra conforto na amizade com outra rapariga de nome semelhante. Contudo, as suas aspirações são confrontadas pelo passado da mãe, um espelho das suas próprias lutas, que a aprisiona num ciclo de desespero. É este o ponto de partida de Nühai, um drama que reflete sobre gerações, uma época de transformação, enquanto aborda a perda, o luto, o exílio e as dúvidas existenciais sobre pertença.
O projeto nasceu há mais de uma década, quando o realizador Hou Hsiao-hsien encorajou Shu Qi, atriz consagrada com três décadas de carreira, a experimentar a realização. “Claro que a obra de Hou Hsiao-Hsien marcou-me. Mas procurei o meu próprio caminho, centrado na memória pessoal e nas relações familiares”, afirmou Shu Qi em Veneza, na conferência de imprensa dedicada ao filme.
Seguiu-se um longo e exigente processo de escrita, com sucessivas reescritas e reestruturações completas, até que a realizadora concluiu o guião num hotel em Milão, depois de integrar o júri do Festival de Veneza em 2023: “Como realizadora, sinto muito mais pressão, quase como se fosse uma impostora”, explicou. “Quando venho como atriz, procuro sobretudo compreender o ponto de vista do realizador. Agora, o meu foco está na reação do público ao meu filme. Hoje de manhã, por exemplo, não estava preocupada com o tapete vermelho, mas com a forma como a sala iria receber a estreia. Foi como reviver o primeiro dia de rodagem”.
Famosa por prestações em filmes de Hou Hsiao-hsien como Millennium Mambo (2001), Three Times (2005), e The Assassin (2015), Shu Qi explicou que nesta primeira incursão na realização quis retratar uma sociedade que conhece bem: “Nos anos 80, Taiwan estava em transformação, em plena industrialização. Lembro-me de ver o céu sempre cinzento, como se uma névoa cobrisse tudo. As pessoas, incluindo os meus pais, corriam em busca de uma vida melhor, mas muitas vezes esqueciam-se de olhar para dentro de casa. Depois mostro a transição para finais dos anos 90: a cidade já construída, o céu azul, sinais de um novo ciclo. E também mulheres mais livres, mais educadas, menos dependentes do pai ou do marido. O meu objetivo foi captar estas mudanças através das relações familiares”.
Alternando entre mandarim e dialeto taiwanês, o filme toca no tema da violência doméstica, mas recorre muitas vezes ao silêncio e à linguagem dos gestos. Sobre isso, a atriz transformada em realizadora respondeu: “Na minha infância, os meus pais falavam taiwanês em casa, mas eu era obrigada a usar mandarim na escola. Era uma mistura constante. Hoje, muitos jovens entendem o dialeto, mas não o falam. Essa tensão familiar subtil está refletida no filme. Quanto à violência doméstica, não quis mostrar cenas explícitas. Preferi trabalhar com o medo invisível — o olhar da atriz, os sons da casa: o fecho do casaco, a porta a abrir, o motor da mota. Esses detalhes criam um ambiente opressivo que o público sente por dentro. Achei mais forte do que mostrar a agressão em si.”
O Festival de Veneza termina a 6 de setembro. Nühai concorre ao Leão de Ouro.

