Curtas Vila do Conde: Entre o México e a Croácia, que se lixe a tradição

(Fotos: Divulgação)

Iniciado na passada sexta-feira, o Curtas Vila do Conde arrancou com a sua competição internacional com toda a força, com duas curtas, “Casa Chica” e “Kismet” a mexerem em tópicos tabus agarrados ao sistema patriarcal. 

A memória de um evento, resultante de uma percepção pessoal, varia de pessoa em pessoa, e essa é chave da segunda curta-metragem de Lau Charles, jovem cineasta mexicana que depois de surgir na Berlinale com a sua curta “Casa Chica” chega agora ao Curtas Vila do Conde.

Inspirado na própria experiência pessoal da descoberta de uma meia-irmã por parte da cineasta, em “Casa Chica” encontramos Quique, de 11 anos, e Valentina, de 5, dois irmãos que depois da separação dos pais vivem agora num pequeno apartamento com a mãe. É num fim de semana que vão passar com o pai que este apresenta-lhes a nova família, que inclui uma madrasta e uma meia-irmã, Valeria. Utilizando a gímnica de uma dupla perspetiva dos eventos, a partir da visão dos acontecimentos por parte de cada uma das crianças, Lau Charles constroi um ensaio sobre a memória e como esta, apesar de partilhada, tem as suas especificidades individuais. Quique, mais velho, tem um entendimento melhor da situação real em que a sua família fragmentada agora vive, enquanto questões ligadas ao género e o facto de ser homem fazem-no recordar especificidades desse dia na interação com o pai, que passaram totalmente ao lado da visão da jovem irmã.

Com uma abordagem naturalista, Lau Charles faz assim um retrato pessoal e íntimo de um fenómeno mais típico do que se pensa no México: o concubinato, que envolve a existência de uma segunda família que alguns homens casados mantêm separadamente da família oficial. É daí que vem o título do filme,  “casa chica” (casa pequena). 

Já “Kismet” vem da Croácia, foi premiada Festival de Curtas-Metragens de Oberhausen, é realizada por Žiga Virc e escrita por Iza Strehar. Nela seguimos Milena, uma menina da comunidade cigana de 11 anos que, enquanto a irmã mais velha se prepara para o casamento, que diz que a vai “libertar”, recusa em ter o mesmo destino, escondendo que já tem em idade fertil.

Kismet” tem o dom de lidar com diferentes gerações de mulheres (interpretadas por Jador Delić, Severina Lajtman e Dijana Delić) que falam das tradições da sua comunidade com diferentes visões, numa luta entre o direito de escolha e o predeterminado destino, a bem da tradição. Logo no início começamos a sentir a indiferença da jovem pelas tradições, quando começa a ser chamada pelas parentes mais velhas e solta palavras que reivindicam que têm trabalhos escolares para acabar. “Fazes isso depois”, dizem elas, para desgosto da rapariga que, à medida que lhe vão falando de um eventual casamento, que até pode ser com um homem de 40 anos, vão levar a jovem a renegar essa possibilidade. 

O naturalismo das atuações sustenta um objeto filmado de câmara na mão, sem tremores estilizados. Filme onde opressão e tradição andam de mãos dadas, e onde a avó da pequena até narra que foi raptada para o seu casamento, salta à vista o surgimento de decisões pessoais que chocam com as comunitárias. E para isso, Milena nem precisou pisar os sapatos de alguém, como as mulheres lhe explicam que têm de fazer quando se casar, mas apenas mostrar sugestivamente as suas reticências quanto ao futuro que lhe querem destinar.

A ruptura abrupta no final significa ela mesmo uma ruptura com o pré-estabelecido? Assim o esperamos, numa curta filmada dentro da própria comunidade que retrata.

O Curtas Vila do Conde prossegue até dia 20 julho.

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